terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Uma quarta feira de cinzas sem fim... é o que queremos?


Por Israel Ávila 

Passada a época dos festejos de final de ano a maioria dos carnavalescos acordou para um problema que vem sendo discutido a muito tempo: o futuro do carnaval de Porto Alegre. As opiniões dividem as redes sociais com discussões acirradas e os mais diferentes tipos de pensamentos.

Na verdade, este frio na barriga dos carnavalescos já era uma “tragédia anunciada” desde que a gestão que acaba de sair da prefeitura não deixou assinado o convênio que poderia garantir o repasse de verba para o carnaval 2017.

O presidente da Liespa, Juarez Gutierres de Souza esteve na posse do prefeito eleito Nelson Marchezan Junior e conversou com ele e o novo secretário da Cultura. Segundo o presidente da Liga, a conversa durou cerca de 20 minutos e deve continuar este semana. Juarez é otimista e diz que o carnaval vai sim se realizar, embora com cortes que serão propostos pela prefeitura.

E o povo faz o que?

Me lembro como se fosse hoje, no leilão das frisas e camarotes quando os carnavalescos se uniram para poder levar a marca de cerveja que quisessem. Todos negaram qualquer lance até que fosse liberada a entrada de bebidas. O leilão chegou a ser cancelado, tamanha a força da opinião e da vontade dos carnavalescos naquele dia. A minha pergunta é: Onde esse povo está agora? Será que o carnaval vale menos que uma lata de cerveja?

Temos de fomentar nossa cultura, e mostrar que ela existe e é um direito nosso. Nem vem ao caso discutir com quem acha que o dinheiro que seria investido na cultura popular deve ser destinado a segurança e educação, por exemplo. Diversas cidades fizeram isso e o dinheiro não foi investido em nada! Em algumas delas a situação até piorou, porque quem não tem acesso a entretenimento e cultura, acaba por cair na marginalidade e vulnerabilidade dos dias de hoje.

O carnaval é gerador de emprego e renda pra muitas pessoas. Traz para Porto Alegre centenas de participantes de outros municípios. Da alegria e sorrisos a rostos que geralmente choram pelas tristezas da vida.

Desculpem-me aqueles que acham que não ter carnaval um ano para “se organizar” é a solução. NÃO É! Será a pior atitude a ser tomada. Temos de ser a RESISTÊNCIA! Temos que mostrar a “voz do quilombo”, por que é isso que o carnaval é, um quilombo, para onde negros e quem mais quiser fogem, na esperança de ter alguns momentos de paz e alegria.

Não ter carnaval é “o que eles querem!”. Este é o plano! Não fazemos este ano e assim já não fazemos mais... RESISTIR E LUTAR é o caminho. Postar insistentemente nossos motivos, e se for o caso, ir sim PRA RUA, da mesma forma com que lutamos contra a corrupção e contra aqueles que nos roubam, até porque, roubar nossa direito de ter acesso a cultura é um crime tão grande, ou maior, do que os que vemos no dia-a-dia.

Não deixem que nos coloquem “goela a baixo” suas culturas elitizadas onde o nosso papel é ser espectador e aplaudir. Temos de seguir sendo O ESPETÁCULO. Temos de desfilar sim: seja sem arquibancada, sem brete, na corda, como antigamente. Talvez este retrocesso possa ser a saída para não morrer!

Não realizar o carnaval 2017 seria como entregar as mãos para novamente sermos acorrentados. Não ter carnaval em Porto Alegre será como uma quarta feira de cinzas, que nunca mais terá fim...