quinta-feira, 14 de julho de 2016

O tema enredo da Academia de Samba Praiana para 2017


Confirmado pela direção da Escola, o que o Setor 1 já havia noticiado, Cartola é o tema da Praiana para o carnaval 2017.

Repetindo o feito da Academia de Samba Puro no carnaval 2008, desta vez, é a Academia de Samba Praiana quem presta homenagens ao Divino Mestre do Morro de Mangueira.

Intitulado: “As rosas não falam, mas exalam o perfume que roubaram de ti: Praiana canta Cartola em verso e prosa”, a verde e rosa promete surpreender em seu próximo carnaval. O tema é de Orãnian Vieira, Suelci Silva e Luiz Felipe Vieira.

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres
Voltar para mim
Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, aí
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhar os meus sonhos
Por fim

Essa é, sem sombra de dúvidas, uma das belas composições do cancioneiro brasileiro, Angenor de Oliveira, o Mestre Divino Cartola.
  Passados mais de 100 anos de seu nascimento, sua obra continua viva, atual, marcada por uma beleza ímpar, seguida por várias gerações.
A trajetória deste poeta de Mangueira é repleta de episódios, com períodos de ostracismos e de sucesso, sua vida lista a História do Samba no Brasil.
Para a Praiana, falar de CARTOLA, é um extremo orgulho, por todas as coincidências que isso traz: O amor pelo samba, as cores verde e rosa, a paixão à Estação Primeira de Mangueira, a boêmia, a poesia, e a harmoniosa concepção de suas melodias. Versos que encantaram outros Mestres da Música erudita e internacional.
Cartola partiu desse mundo deixando-nos suas canções e seu amor, e a nós resta louvá-lo por isso. Ignorou as injustiças pois esteve sempre ocupado com o que tinha no coração: “sabedoria suficiente para entender que estava adiante de seu tempo”.

SALVE O DIVINO MESTRE!

 O menino Angenor de Oliveira, é carioca da gema, nascido ao sol da Guanabara, no bairro do Catete, Zona Sul do hoje estado do Rio de Janeiro e até os 11 anos tem uma vida confortável no vizinho bairro das Laranjeiras. Neto de cozinheiro famoso, Luís Cipriano Gomes, trabalhou para o então Vice-Presidente Nilo Peçanha e filho de Sebastião Joaquim de Oliveira, sambista e cavaquinista e, de Aída Gomes de Oliveira, uma dedicada foliã. Vem da família a ligação com o samba, carnaval e festas de rua. Aprendeu a tocar cavaquinho aos 8 anos e participa de ranchos como o dos Arrepiados, que tinha as cores verde e rosa, onde as irmãs saíam de pastoras. Com a morte do avô, seus pais passam a procurar um lugar mais barato para viverem junto aos sete filhos.
Mudam-se, então, para o Morro de Mangueira, localizado na Zona Norte da cidade e que não possuía mais que cinquenta barracos, indo direto ao buraco quente. Pobre, Cartola trabalhou desde cedo fazendo bicos como pintor. E é daí, do trabalho de pintor e pedreiro que surge seu apelido. Vaidoso, usava um chapéu coco para proteger seus cabelos. Com dificuldades termina seus estudos e entre os 15 e 17 anos, deixa a família e os estudos, expulso pelo pai, caindo na boemia, passa a conviver com o universo da cultura negra dos morros, participando das rodas de samba e de batuque e, também, um jogo de pernadas praticados por bambas e valentes. Envolve-se com mulheres, bebidas, adoece e deixa de trabalhar. Mas o trabalho não estava entre suas grandes paixões, gostava mesmo era do samba e do carnaval. Prostrado, morando num pequeno barraco e com saúde bastante debilitada, recebe a visita de uma vizinha, Deolinda, com quem viria a se casar. O barraco em que passariam a viver estava sempre repleto de sambistas e boêmios.

Foto: Web

Nessa época conhece Carlos Cachaça, seu grande parceiro e amigo. Além da parceria musical formavam uma turma de arruaceiros denominados Bloco dos Arrengueiros, a qual se tornaria o bem maior de Cartola: Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira” fundada a 28 de abril de 1928, nas cores de seu coração Verde e rosa, oriunda da fusão com outros blocos do morro, sendo responsável pela harmonia da escola. Chega de Demanda, samba composto por Cartola para a Estação Primeira, é o primeiro samba da escola. Vivendo da música, vende composições para viver e em 1931 passa a ser conhecido fora do Morro da Mangueira quando vende à Mario Reis uma canção onde o mesmo não se adapta e repassa ao grande Francisco Alves. Vendeu muitos outros sambas, passa a ser conhecido e tem sambas gravados por Carmen Miranda e Sílvio Caldas. Faz parceria com Noel Rosa, entre outros. O sucesso não lhe sobe à cabeça e distancia-se, compondo apenas para a escola de samba. Em 1940 é procurado pelo compositor erudito Heitor Villa Lobos para participar da gravação com o Maestro Leopold Stokowiski grande pesquisador de músicas nativas ao lado de Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Cria com Paulo da Portela, na Rádio Cruzeiro do Sul, o programa A Voz do Morro, onde apresentava composições e o público escolhia o nome para as mesmas. Dessa parceria surge o Conjunto Carioca juntamente com Heitor dos Prazeres e Paulo da Portela, e excursionam durante um mês por São Paulo. E, ainda, neste ano passa por grandes dificuldades, doente e viúvo, entrega-se a uma paixão destrutiva com Donária, abandona o Morro da Mangueira em direção ao bairro do Caju e após, baixada fluminense e desaparece do mundo musical. Muitos acreditam ter morrido e sambas foram compostos em sua homenagem.
O destino quer que se saiba que ele vive e, ele é redescoberto pelo jornalista Sérgio Porto que o encontra lavando carros em uma garagem no bairro de Ipanema e trabalhando a noite como Vigia Noturno. Emocionado, o jornalista o leva para cantar na Rádio Mairinck Veiga, Jota Efegê arranja-lhe emprego no Diário Carioca. Mas quem consegue repatria-lo ao Morro de Mangueira foi Euzébia Silva do Nascimento, Dona Zica, após o término do conturbado relacionamento com Donária. Dona Zica ganha seu coração, vivendo juntos, sua casa passa a ser encontro de sambistas, músicos, artistas... Em 1961 desce o morro com Zica e o filho Ronaldo para morar e trabalhar como zelador na Associação das Escolas de Samba no centro da Cidade. O local foi palco de várias rodas de samba e encontro de personalidades como Lúcio Rangel, Lan e Ary Barroso, mas, era também frequentado por empresários e um deles, Eugênio Agostini foi apresentado ao mestre por Nuno Veloso membro da Ala dos Compositores da Mangueira. Com a provável demolição do prédio onde trabalhava e residia com a família, Agostini propõe à Zica que alugue um lugar onde a mesma possa vender a sua comida, dessa proposta nasce o mítico Zicartola. A casa funcionou na Rua da Carioca, 53, e torna-se palco do espetáculo Opinião, onde outro compositor e cantor surge: Paulinho da Viola. O local é essencial para ressurgimento de velhos sambistas como Nelson Cavaquinho e Ismael Silva, e serve de palco para o casamento de Cartola e Zica. Apesar de todo o sucesso a casa funciona por três anos e mesmo com o fechamento proporciona ao mestre a realização de seu grande sonho: a produção de seu primeiro disco solo em 1974 pela Marcos Pereira. O sucesso foi estrondoso e outro LP é lançado com igual sucesso que marcam o surgimento de seus grandes clássicos “As Rosas Não Falam” e o “Mundo é Um Moinho. Um programa da Rede Globo, intitulado “Brasil Especial” dedicado ao mestre e neste mesmo ano, em setembro, apresenta-se com João Nogueira no Projeto Pixinguinha no Rio, sucesso incontestável, o espetáculo é também apresentado em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre e aproveita para lançar em outubro seu terceiro LP: “CARTOLA – Verde que te Quero Rosa” pela RCA VITOR, mantendo sucesso de crítica. Em 1979 lança seu quarto LP: “CARTOLA 70 ANOS e descobre que está com câncer, doença que causaria sua morte.

O FIM DA VIDA


Ainda que tardio, o reconhecimento foi importante para que Cartola pudesse viver os últimos anos de sua vida com conforto ao lado de Dona Zica e sua família na casa verde e rosa construída no terreno doado pelo Governo da Guanabara na Mangueira. Desce o morro pela última vez e instala-se em Jacarepaguá, onde vem a falecer em 1980, aos 72 anos, longe de sua verde e rosa, o que jamais impediu que fosse lembrado e respeitado como o Divino Cartola, Mestre da Verde e Rosa. E mesmo após a sua morte, ele foi lembrado em livros, espetáculos e discos, suas canções se eternizam na voz de vários cantores.