terça-feira, 21 de junho de 2016

Porto Alegre nos ombros de Bará


Olá amigos. Um prazer novamente poder escrever para vocês. Já que estamos em junho, vamos falar de Bará. O Orixá da chave, que abre os caminhos e mensageiro dos orixás talvez tenha em Porto Alegre, mas especificamente no Mercado Publico, seu espaço mais visitado e que faz parte da crença até de quem não pertence a religião de matriz africana.

O Mercado Público não é um espaço restrito ao comércio, também tem grande relevância para as religiões de matriz africana. Essa importância explica-se por acreditarem que ao centro do edifício está assentado o Orixá Bará, que, dentro do panteão africano, é a entidade que abre os caminhos, o guardião das casas e cidades e representa o trabalho e a fartura. “Assentar” significa fixar o orixá em determinado objeto através de práticas rituais específicas. Este objeto – chamado pelos praticantes da religião de ocutá - foi enterrado no chão do Mercado, exatamente no seu centro, significando que o orixá está ali, podendo ser visitado, cultuado e receber oferendas dos adeptos da religião.


Há duas versões para a origem do assentamento, a primeira diz que o Bará foi assentado no centro do Mercado pelos negros que construíram o prédio, sendo esta uma prática comum para atrair a prosperidade comercial. A outra versão atribui ao Príncipe Custódio a iniciativa de assentar o Bará no início do século XX. Não há consenso entre os praticantes de religião e estudiosos sobre o assunto. Seja como for, ambas as versões acenam, por um lado, para a importância original do Mercado Público, enquanto território de negros, e para a ocupação do espaço com o passar dos anos pelos portugueses e membros de outras etnias; e, por outro lado, para a crença que vigora no meio afro-religioso gaúcho, segundo a qual, a longevidade do Mercado Público e sua manutenção centenária, apesar dos incêndios nele ocorridos, devem-se ao Bará que não somente protege o espaço físico, seus trabalhadores e transeuntes, mas também é a fonte de axé e proteção para os seus fiéis e crentes.

No ritual de iniciação de um indivíduo na religião de matriz africana, o primeiro local a ser visitado é Mercado Público, devido à importância que o Bará tem para o iniciado, já que ele abre os caminhos e também porque significa o início de todas as coisas. Este ritual é chamado de passeio, e é presente em todas as religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul. As floras são também atrativos para que os afro-religiosos freqüentem o Mercado Público. Flora é um estabelecimento especializado em comerciar produtos e artigos afro-religiosos. No Mercado há quadro delas, cada uma localizada nas entradas do Mercado, sempre à esquerda

Príncipe Custódio a iniciativa de assentar o Bará no início do século XX. 

Além da prática específica do “passeio” realizado no Mercado, diariamente várias pessoas vêm visitá-lo para receber a força mística do “axé” que está no seu centro. É no Mercado Público também que, geralmente, os pais-de-santo compram os produtos necessários para a realização dos rituais. A própria compra desses alimentos reveste-se de importância, pois ao se comprar no Mercado está se levando junto com os alimentos o “axé”, ou força mística, do Bará que está assentado no prédio. Por fim, o “axé” do Mercado é o mais forte da cidade, já que é o mais antigo.