terça-feira, 31 de maio de 2016

O silêncio quem vem do fundo dos nossos quintais...


Fomos acordados no último domingo com a notícia do falecimento do grande Mário Sérgio, vocalista e cavaquinhista do Fundo de Quintal. Uma perda enorme pro nosso mundo do samba. Um artista culto, poeta. De letras muito bem trabalhadas e incomuns e harmonias lindas que fugiam da mesmice que na maioria das vezes ouvimos por aí.

          Mário Sérgio Ferreira Brochado, tinha 58 anos de idade. Foi fuzileiro Naval e atleta de Salto em altura na juventude e tinha formação em Economia e Administração de empresas. Desde 1994 fazia parte do Fundo. Esteve um período afastado, em carreira solo e depois retornou ao grupo.

          O tamanha da obra que ele nos deixa é imenso. Dezenas de sucessos gravados pelo FDQ e por outros artistas. Reconhecidamente um dos símbolos do samba no país. Viajou o mundo defendendo a bandeira da música brasileira. Timbre de voz incomparável e que alcançava com facilidade as notas altas que seu cavaquinho lhe propunha.

          Mesmo assim, com tudo isso. Não teve, em vida e nem no dia de sua morte, o reconhecimento que deveria ter na mídia. Não que isso o “apequene” ou coisa assim, de maneira nenhuma. Afinal ele era do Fundo de Quintal, um grupo com quase 50 anos que se fez sucesso, sem mídia, sem redes sociais, sem internet, sem nada das facilidades que hoje existem. Foi na raça, no talento e pela boca do povo dos guetos desse nosso país. E nós sambistas, sabemos o real tamanho de sua grandeza.


         Talvez a morte de um sertanejo com a metade da bagagem do Mário seria notícia dos telejornais e sites a semana ou o mês inteiro, como já aconteceu.

         Mas somos o samba. Somos o gueto. Música de preto (sim, ainda hoje em dia tem gente que pensa e fala assim). 

         Por que falar disso ou exaltar um homem que foi e será sempre símbolo de uma arte recriminada, quando é mais “rentável” lamentar qualquer outra perda, de qualquer outro segmento que esteja “na moda”?  Pergunta que a mídia não vai responder nunca. Afinal dizem que vivemos num país onde já não há mais preconceito racial, não é?

         MAS SOMOS O SAMBA!
         SOMOS O GUETO!
         DA MÚSICA DE PRETO!

E se não nos abrem caminho, a gente abre no gogó e no talento!
Como fez o Fundo!
Como fez o Mário!
Como a gente vai continuar a fazer!
  Vá em paz poeta! Missão cumprida!!!

                                        “...Tanto tempo a luz acesa,
                                             Mas sem que ninguém perceba,
                                             De repente a luz se apagará...”

                                                               Mário Sérgio.