terça-feira, 31 de maio de 2016

A tal representatividade


Na última semana, muitas pessoas me marcaram em um comercial que não sei especificar de que país exatamente é. Evitei até comentar as marcações para não chamar ainda mais atenção para aquele absurdo. No que pareceu ser a propaganda de um sabão em pó, um ator negro é atraído pela atriz de traços orientais que, quando ele se aproxima, o joga dentro da lavadora de roupas. Depois da lavagem, ela fica feliz ao ver que ele sai da máquina com a pele clara e traços orientais também.

Entendo quem compartilhou o vídeo como protesto ou denúncia, mas não divulgar talvez fosse minha mínima contribuição para que o menor número possível de crianças negras tivessem acesso a esse comercial. Eu só conseguia pensar nessas crianças chegando em casa depois de mais um dia de piadas e deboches racistas na escola, olhando para aquela máquina de lavar roupas e tentando se jogar dentro dela para, depois de uma boa lavada, como o comercial sugere, sair branquinho e com todos seus problemas resolvidos.

Acha exagero? Você não é o único. Nos comentários das muitas páginas que postaram a propaganda, tinha muita gente dizendo não entender porque tanta indignação. Caberia explicar para cada uma delas que crianças negras, em algum momento da vida, já passaram horas no banho, esfregando a pele com força, pra ver se ela clareava. Ou dizer que, muitas, já usaram produtos quando viram que só o banho não adiantava. Ou ainda contar que alguns trazem cicatrizes até hoje por conta das loucas tentativas de deixar a pele menos escura e amenizar o preconceito que viviam. Mas, se um comercial que lava um negro na máquina, o faz sair branco como sinal de limpeza e deixa evidente que a versão clara, resultado desse processo, é uma versão melhorada, não choca e revolta no primeiro impacto, dificilmente alguma explicação mudaria essa percepção.


Ocorre que na mesma semana em que tal vídeo viralizou na internet, Sabrina de Paiva foi eleita Missa São Paulo 2016 e escolhida para representar o Estado no Miss Brasil. Independente do que cada um de nós pensa sobre esse tipo de concurso, ele existe e é mais uma manifestação que discrimina e exclui metade da população brasileira fazendo com que qualquer estrangeiro desavisado que esteja assistindo ao concurso por aqui  tenha certeza de que ele seja de alguma país europeu ao olhar para as candidatas. Considerando isso, o fato de Sabrina ser negra deve ser não só enfatizando, como celebrado. E além de negra, Sabrina usa seus cabelos naturais. Hoje já sabemos que somos lindas usando nossos cabelos como bem entendermos, inclusive alisados, mas por ser principalmente lisos que eles sejam aceitos, usá-los de forma natural ainda é um ato de resistência, sim. E será assim, com seus traços negros, resistindo na prática a teoria do branqueamento, que Sabrina irá representar o Estado mais rico do país no concurso nacional. 

Mais uma vez, veio a incompreensão e os questionamentos de porque tanto exagero, dessa vez não na indignação, mas na comemoração. E, mais uma vez caberia explicar o que significa ver alguém como você, com seu nariz largo ocupando o lugar de mulher mais linda, quando você usou prendedor de roupas no nariz, quando criança, tentando afiná-lo. Ou o que significa vê-la sacudir seu cabelo volumoso e ver que ele combina muito bem com uma coroa, quando você colocava toalha de banho na cabeça quando mais nova, para fingir que ele era liso e balançava, ou ficou careca na adolescência tentando esconder qualquer traço de negritude. Ou ainda ver sua pele negra, aquela mesma que resistiu a tantas tentativas de clareamento, ter agora sua beleza respeitada. Assim como a indignação em relação ao comercial não deveria precisar de explicações, não serão explicações também que conseguirão despertar empatia com nossa comemoração pela representatividade nesse caso.


Por isso, acredito que a desconstrução, uma das nossas armas mais eficazes para combater o racismo, por vezes possa ser deixada um pouco de lado. A escolha de Sabrina merece ser comemorada, e vejo esse como um momento em que, mais importante do que ler e gastar energia respondendo comentários racistas disfarçados de opinião, seja mostrar para nossos pequenos a imagem deles como destaque positivo. Aliás, nem só pra eles. Quem não se lembra de Virgínia McLaurin, a senhora negra que dançava de tão feliz que estava ao conhecer o casal Obama, algo que ela mesma disse que achou que não viveria o suficiente para ver? Seja aos 6 ou aos 106, idade de Virgínia, representatividade importa e nós precisamos e merecemos esses momentos de vitória. É neles e através deles que ganharmos fôlego para as próximas batalhas.