segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Não há nada de errado com nossos olhos


Carnaval acabou e a mim parece ter deixado muita sujeira. Sinto como se eu fosse uma moradora daquelas cidadezinhas pequenas que recebem milhares de pessoas para brincar a festa e eu estivesse da minha janela observando a bagunça que deixaram na minha calçada.
Esses dias de folia deixam todas as nossas pendências e falhas tão à mostra, em uma dose tão pesada que ainda estou de ressaca. Se olharmos para Salvador e Rio de Janeiro, que pego como exemplo por serem referências em seus segmentos, chega a doer.
Na capital baiana, as mesmas cordas que um dia nos amarraram, hoje nos separa. Camarotes recheados de famosos e anônimos, em sua imensa maioria brancos, nem tomam conhecimento de que crianças negras dormem em caixas de isopor enquanto seus pais trabalham para, nesses dias, faturar um montante que, sabe Deus quando conseguirão juntar novamente. Em cima dos blocos, reis e rainhas de pele clara comandam inclusive blocos afro, mesmo sendo minoria na cidade com quase 80 por cento de negros.

No Rio, mais de meia dúzia de destaques negros em um mesmo carro alegórico pode apostar que é para retratar a escravidão. No comando, homens brancos. Até presidente de agremiação de origem libanesa tem, mas negros não somam uma mão cheia, se observarmos todos os grupos. Das doze escolas do grupo especial, apenas quatro negras reinam no disputado posto na frente de baterias, a grande maioria vem lá atrás, em alas de passistas, por vezes com mais samba no pé, mas certamente sem o mesmo holofote, e também não se sabe por quanto tempo. Somos raridade entre os homenageados e perdemos a cada ano o protagonismo em uma festa com raízes obviamente negras.
Longe disso tudo, o carnaval de BH talvez passasse despercebido se não fosse o episódio da família que se vestiu com fantasias do Aladdin e, na escolha do personagem para o filho, por acaso (ou não) negro, optou pelo macaquinho.  Sobre o fato em si acho que já foi dito o suficiente, então quero falar neste texto sobre um bloco que está na rua há muitos carnavais e fez barulho com esse acontecimento: o dos que acreditam que o preconceito está nos olhos de quem vê.
Para justificar o nome do bloco, seus foliões compartilharam fotos de meninos brancos também vestidos de macaco, dizendo não haver diferença entre eles e o menino negro, e afirmando que se víamos diferença, o problema estava nos nossos olhos, claro. O que eles ignoram é o fato de que entre as crianças mostradas, a única que será de fato chamada de macaco será a negra, não importa o quanto ele se aceite e tenha orgulho de ser quem é. E isso será feito, muito provavelmente, em um momento em que um racista agressivo terá perdido todos os seus argumentos e usará o xingamento clássico e rasteiro que, ao contrário do que muitos pensam, não é feito para igualar a cor da nossa pele com a dos pelos dos macacos. Comparar negros a macacos vem desde o tempo em que se utilizou da ciência como base para comprovar que estávamos abaixo de brancos europeus na evolução humana e para, com isso, justificar o trabalho escravo pelo mundo. A escravidão se foi, mas a teoria ainda hoje é utilizada para ofender. Por isso, uma criança negra vestida de macaco carrega uma simbologia totalmente diferente de uma criança branca com a mesma fantasia, fazendo com que exista uma diferença entre elas.
Muitos também apelaram para a boa de intenção do pai branco do menino. Eu, honestamente, quero acreditar que o pai não vestiu seu pequeno para que ele fosse ridicularizado. O mesmo não posso dizer em relação à socialite que diante da cantora Ludmilla deslumbrante em uma escola de samba disse que seu cabelo parecia uma esponja de aço, outra comparação bastante simbólica. No segundo caso acredito que o preconceito tenha sido externado com toda a maldade possível. O que iguala as duas atitudes é o fato de serem, sim, carregadas de racismo. Porque o que classifica racismo como tal é o ato, não suas intenções. Por isso, não adiantam desculpas, cartas abertas com explicações ou coisas do gênero sem uma reflexão profunda e sem se admitir que o racismo enraizado é capaz de atingir inclusive o mais puro dos corações.
O lema do bloco é dizer que somos todos iguais e que não veem cor de pele. Só que fechar os olhos para isso parece os impedir de enxergar que na vida real as pessoas ainda não são tão maravilhosas assim e existe uma estrutura que procura negros com lupa para discriminar, excluir e matar. Não pensem que nos ofendem quando dizem que vemos racismo em tudo porque em um país prestes a completar 516 anos, que se ergueu e se fortaleceu sobre uma estrutura escravagista que se manteve por 358 anos e teve uma abolição tão mal feita que 128 anos depois os descendentes de escravos ainda sofrem os efeitos dela, o racismo está de fato em tudo. E não teria como ser diferente. Como seria possível o racismo se manifestar em algumas esferas e não em outras se ele é estrutural e institucional? Por isso, dizer que não vê cor de pele e não ver que há uma desigualdade racial em todas as camadas ao olhar para uma sociedade como a nossa não faz de ninguém um ser de espírito evoluído e está longe de ser um elogio. A não ser que a intenção seja mesmo não mudar nada de lugar é preciso abrir os olhos, olhar para nossa volta, dos ambientes mais abastados aos mais pobres, dos acadêmicos às brincadeiras de carnaval e ver que a pirâmide com negros na base estará lá.
E além dos olhos, é preciso manter também os ouvidos abertos para escutar o que dizem as pessoas que sofrem racismo, os negros.  Acredito, sim, na empatia e na capacidade de não negros entenderem e se solidarizarem, mas mesmo quem luta todos os dias para se desconstruir precisa manter em mente que, querendo ou não, se favorece dos privilégios que a racialização reserva a pessoas brancas. E confesso que tenho achado um tanto quanto prepotente demais essa certeza de que sabem julgar melhor que nós o que é ou não racismo. Se não sentem na pele e não nos ouvem, será que absolvem com tanta certeza baseados em quê?
E não é raro vermos os mesmo que relativizam atos racistas, apontarem o dedo para quem não reage com amor. Porque é assim, e só assim, que o bloco do “preconceito está nos olhos de quem vê” acredita que devamos rebater e lutar. Se vestir de “branca maluca”, xingar, gritar e qualquer outra reação mais sisuda é tido como ignorância, arrogância e, pasmem, intolerância. Admito que eu mesma, tempos atrás, não achava que fosse muito eficaz lutar ao lado de militantes que alguns classificam como "raivosos", mas revi e conclui que não há uma fórmula para combater o racismo. Alguns são mais jeito, enquanto outros são mais força. Não duvidem da nossa capacidade de sermos as duas coisas. Não desconfiem da nossa inteligência para avaliar quando cada uma das reações é mais indicada. Porque a reação em si é que não pode, e não vai mais, deixar de acontecer e uma luta contra inimigos tão ardilosos talvez precise mesmo de combatentes com tamanha habilidade.
Não estamos vendo coisa onde não tem. Não há nada de errado com os nossos olhos. É que hoje eles estão tão abertos como nossos sorrisos conseguem ser apesar de tantas batalhas. E não se fecharão mais.