quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Chupa essa laranja!

Por Israel Ávila

Quarta-feira de cinzas é dia de enterrar os ossos de um carnaval diferente e atípico. Mas enterrar não quer dizer esquecer, muito pelo contrário é preciso lembrar, assim como não esquecemos um amigo querido que morre, não podemos esquecer este carnaval, pois se não olharmos para o passado, jamais poderemos corrigir os erros no presente, aliás, não só os erros, também é preciso repetir os acertos.

O novo regulamento do carnaval proposto pela LIESPA e acatado pela UECEGAPA prevê uma revolução nos Grupos do carnaval de Porto Alegre. Isso fez com que a campeã do Grupão (que aglomerou escolas de todos os tamanhos e lugares) não fosse agraciada com uma vaga no Grupo Especial, ou seja, ganhou o carnaval pra continuar na mesma. Uma pena para a comunidade de São Leopoldo e para o Império do Sol que foi consagrada e ao mesmo tempo ficou estagnada no grupo em que pertence.

A poderosa rede de televisão que tem os direitos (somente direitos e nenhum dever com a nossa cultura) da transmissão do carnaval tem “dedo” nisso. Se recusa a ter dois dias do nosso carnaval transmitido, e assim induziu a ideia de que o grupo especial fosse menor. Prova disso é que não transmitiu a primeira noite onde em meio as escolas do Grupão, foram jogadas 3 escolas do Grupo Especial: Unidos do Capão, Imperatriz Dona Leopoldina e Acadêmicos de Gravataí.

Entre pierrôs, colombinas e palhaços, talvez muito mais palhaços, a tão poderosa do plim plim inclusive baniu as três escolas da gravação dos clips que vão ao ar durante a programação, ignorando a existência de três tão importantes comunidades.



Seguindo o baile, e ainda antes dos desfiles tivemos a fatídica eleição da corte, que nos obrigou a engolir um representante máximo que da nossa cultura tinha conhecimento mínimo. Sim, o carnaval é uma festa popular pra todos! Mas eu, por exemplo, jamais me candidataria a ser porta bandeira, por maior que fosse minha vontade de girar!

Por falar em girar, podemos girar pelo dia em que fomos para o Porto Seco pra adquirir nossos camarotes e frisas, mas tivemos que voltar pra casa, porque a empresa que montaria os mesmos ainda não estava contratada.

O rigoroso credenciamento da Imprensa serviu até que entrássemos no sambódromo, aquele que é construído e desconstruído, todos os anos, como quem da e tira um brinquedo para criança que não se comporta.

Mas falando do credenciamento, durante os ensaios técnicos cada órgão de comunicação teve um espaço para realizar seu trabalho. Claro, treino e treino, e jogo é jogo! Nos dias de desfile o tratamento foi outro. Cada órgão teve de se aglomerar como pode, porque em dia “das grandes” todo mundo tem direito!

Na sexta feira de carnaval os amigos do Tamujunto, por exemplo, que trabalham o ano todo em prol da festa popular ficaram totalmente sem espaço pra trabalhar, e nós do Setor 1, tivemos a graça divina da parceria com a ON Rádio, que nos cedeu um espaço em seu camarote para montar nosso material.
Lembre-se: Não é pela divisão do espaço, foi pela falta de uma reunião que anteriormente poderia prever isso, e desta forma fazer com que nós, OS PEÕES DE OBRA do ano todo pudéssemos realizar nosso trabalho da melhor forma.

Fora isso tivemos que nos acotovelar no corredor da imprensa que todo mundo pode passar, desde que tenha o crachá de pista livre, distribuído aos montes para pessoas que jamais vi em uma escola de samba.

Alguns fotógrafos foram impedidos de fazer seu trabalho na avenida! Só alguns, aqueles que correm atrás dos políticos (e os aspirantes a políticos) pra defender seu salário de CC poderiam ir e entrar onde quisessem, já os fotógrafos de Imperadores do Samba, que fazem parte da escola, estes tiveram de ficar na concentração.

Mas o carnaval passou, as escolas estavam lindas, o carnaval da superação e da crise financeira revelou vários guerreiros, entre eles, cada presidente de escola de samba que conseguiu botar sua entidade na avenida, e também os desfilantes e o público, que se desdobrou em dias de semana pra não deixar suas escolas “na mão”.

Pra finalizar tivemos uma apuração de diferentes campeãs. E aqui não devemos contestar títulos e sim festejar a oxigenação do carnaval. Duas novas escolas nas cabeças, e ainda festejar que a grandiosa “proprietária dos direitos” não teve direito a nada!

Ironia do destino que os “patinhos feios” que ficaram entre as desprezadas de sexta, são as grandes campeãs do carnaval de Porto Alegre, e assim o povo todo teve motivo pra comemorar, porque se fez respeitar através da Imperatriz Dona Leopoldina e de Acadêmicos do Gravataí. O grito entalado de tantas injustiças se vestiu nas cores destas comunidades, e por isso todo o carnaval pode-se dizer campeão.

A poderosa teve de tomar este suquinho de laranja e aceitar sem reclamar. No mais, entre tantos questionamentos um dos maiores, na minha humilde opinião é: Vale a pena diminuir o custo da estrutura, para que as escolas passem na passarela pra “ninguém”?

A grande diminuição do público nas noites de ensaios técnicos e nos desfiles de sexta, domingo e terça, foram a resposta para as revolucionárias mudanças que permitiram fazer em nosso carnaval. Isso também é importante de se pensar, a emissora só faz o que quer, porque tem alguém que permite!

Outro questionamento plausível é: Temos representantes que falam por todo o carnaval. Mas é todo o carnaval quem os elege?

Bom, vou ficando por aqui deixando um forte e imenso abraço a todos que nos acompanharam durante todos os dias de transmissão via web no Setor 1. Um abraço mais forte ainda a todos os componentes de todas as entidades que cruzaram as linhas amarelas.

E desde já peço desculpa caso seja impedida ou dificultada a minha entrada e do Setor 1 em qualquer próximo evento do carnaval. Porque na folia dos gaúchos é assim: Quem não canta parabéns e bate palma pro “dono da festa”, não ganha um pedaço do bolo!