quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O que Neymar tem a aprender com o pequeno Matias


O ano novo chegou e as questões raciais não ficaram de fora das mídias nem mesmo por uma semana, mas, dois casos acontecidos em pontos distantes, me parecem ter as suas semelhanças apesar da distância física.

De um lado, Neymar, que dispensa qualquer apresentação. O jogador já havia dito em uma entrevista nunca ter sofrido racismo nem dentro, nem fora de campo, afinal, como ele mesmo justificou, "não é preto, né?" E vamos combinar que, aqui em terras brasilis, não é mesmo. Na aquarela que define se se é preto o suficiente para sofrer racismo, Neymar está distante o suficiente ao ponto de se beneficiar da miscigenação que o antecede. Vivemos em um país que discrimina com base no fenótipo. O que se vê é mais forte do que qualquer herança genética. Com base nisso, Neymar, aos olhos de muitos racistas, e aparentemente até dele mesmo, esteticamente, não teria muito com o que se preocupar. E se adicionarmos a isso tudo, a conta bancária do craque, problema resolvido. Mas na Europa, onde ele joga, é diferente. E não há miscigenação ou fortuna que mude a realidade: Neymar é negro. E ele teve que encarar isso essa semana quando torcedores espanhóis imitaram o som de macacos quando ele tocava na bola, durante um jogo. Sobre o assunto, o atacante apenas disse não ter ouvido nada porque apenas joga futebol. Acrescentou que é difícil as coisas o incomodarem, no melhor estilo zero "ousadia" e com uma "alegria" meio esquizofrênica.


De outro lado, o grande Matias. Grande nas atitudes, porque ele só tem quatro anos. Matias é filho de Jaciana Melquiades e Leandro Melquiades. Tive o prazer de conhecê-los ao entrevistá-los na Feira Preta de 2014 sobre o trabalho deles. O casal é criador do "Era Uma Vez O Mundo", uma empresa que cria brinquedos educativos e afirmativos, entre outros projetos que valorizam a estética negra. Dá para ter uma ideia do ambiente em que Matias é criado e como lida com questões raciais. No mesmo dia em que Neymar foi atacado na Espanha, Matias ganhou um boneco do personagem Finn, de Star Wars. Boneco esse que é negro, como Neymar e Matias, reproduzindo a estética do ator britânico John Boyega, que viveu Finn no último lançamento da saga. Acompanhei as movimentações quanto à escolha de um ator negro para o papel na época, que incluiu uma campanha de boicote. Vi também que após o filme, bonecos com o personagem foram lançados para delírio dos fãs de Star Wars, que apesar do fanatismo deixaram milhares de réplicas do Finn negro encalhando nas prateleiras pelo mundo todo. 

Mas Matias não liga para nada disso e enlouqueceu quando viu um boneco tão parecido com ele. Pulava, se negando a largar a caixa, como contou Jaciana, que comprou o boneco para o filho e postou no facebook com a legenda: "ele nem sabe o que é Star Wars, mas sabe que o boneco é igual a ele." Porque Matias pode não saber nada de Star Wars, mas é perito em representatividade. Sabe o quanto é importante ter referências, e não está sozinho.

A prova disso é que a foto viralizou na internet. Milhares de curtidas, outros milhares de compartilhamentos. E como qualquer atitude de empoderamento, incomodou. Foi denunciada por conter nudez (aham, isso mesmo!) em uma tentativa de apagar algo tão lindo e de evitar que continuasse se espalhando e fortalecendo nossa negritude mais e mais. 

A foto de Matias com seus olhinhos brilhantes e o efeito dela mostra que de onde chegamos, só se vai em frente. Nos mantiveram amarrados por tanto tempo usando nossa autoestima como corrente, e não é à toa que ela tem sido um importante caminho de libertação. Neymar ainda está do lado de lá, da negação. Uma pena... Uma postura diferente no episódio na Espanha, com o alcance que ele tem, fortaleceria a luta. Fortaleceria a ele mesmo e faria brilhar os olhos de muitos que ainda estão apagados por aí. Mas seguiremos e chegaremos até eles. Por enquanto, gostaria que Neymar pudesse conhecer o pequeno filho de Leandro e Jaciana, e se permitisse aprender com ele, porque basta olhar a caminhada de ambos para constatar que "a força está com Matias".