quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Estudos do Quesito Mestre Sala e Porta Bandeira em Porto Alegre


O carnaval está aí... faltam alguns dias para os desfiles oficiais... Para quem vai desfilar, assistir, participar, fazer a fantasia, a alegoria, tocar, cantar, dançar... valem os ajustes finais, os detalhes que são primordiais para que as apresentações sejam impecáveis. Para entender e compreender o carnaval, melhorar, aprimorar, é necessário aprender, ouvir, estudar, discutir... Desta forma, acredito que seja a única saída para o nosso carnaval sair da crise, sim crise... mas este é um assunto para uma outra coluna... Hoje, lanço um olhar sobre a qualificação, as melhorias, sendo a alternativa vital para mudar a realidade atual... e nada melhor que os encontros proporcionados ao estudo. Como o assunto nunca se esgota, lanço a seguir alguns excertos dos estudos do Quesito Mestre Sala e Porta Bandeira.

Compreendendo a importância de saber, aprofundar-se no assunto que gostamos, destaco aqui o evento, que aconteceu durante o 1º Seminário do Quesito Mestre Sala e Porta Bandeira, realizado em 21 e 22 de novembro de 2015, idealizado e desenvolvido pelo Padedê do Samba em Porto Alegre, onde tivemos a oportunidade de ouvir a palestra da professora e doutoranda, a carioca Eliane Santos Souza, que tem como nome artístico Lili Plisséia (do grego aquela que dança). Ela foi porta bandeira em diversas escolas de samba cariocas.

Uma ávida pesquisadora das questões do casal de mestre sala e porta bandeira. Eliane é Mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo tema de sua dissertação foi a dança do casal: “Uma Semiologia do Samba: O Bailado do Mestre Sala e da Porta Bandeira” na Universidade Federal Fluminense/2003. Na UERJ, desenvolve sua tese de Doutorado com estudos sobre o personagem mestre sala, além de diversos trabalhos voltados ao quesito. Ela também é jurada do carnaval pelo Brasil desde 2001.

Nos brindou com sua presença técnica e espiritual em uma manhã de um domingo, onde em sua fala, nos proporcionou ensinamentos preciosos sobre cultura popular, com ênfase no quesito mestre sala e porta bandeira. Transcorreu com um pouco de história para chegar aos dias atuais, da situação atual da dança, da coreografia, dos passos, dos trejeitos, da conduta e da vestimenta do casal de mestre sala e porta bandeira.
Ela nos aponta, em sua vasta experiência, que muita coisa influenciou a dança do casal, e a principal mudança se deu nas adaptações e nas modificações que ocorreram nas vestes, nas roupas e nas fantasias. Ao longo do tempo a roupa se avolumou muito, interferindo na dança do casal, principalmente na dança do mestre sala. O tamanho dos chapéus, resplendores, penduricalhos, para compensar o aumento do sambódromo e a distância de quem assiste aos desfiles na Marques de Sapucaí, fez com que as escolas aumentassem significativamente a fantasia do casal, influenciando assim, por conseguinte, a dança deste casal.


Desta feita, lançou um alerta aos carnavalescos: ressaltou e enfatizou da importância e da participação, além da decisão do próprio casal, ao ver o seu desenho e figurino e na construção de sua indumentária. Também do papel do jurado/avaliador/julgador de apontar os erros causados pela questão da fantasia que atrapalha a dança, para que haja uma conscientização em relação ao quesito, no que diz respeito aos critérios e concepção da fantasia do casal.

Eliane nos aponta outras modificações, agora em um nível coreográfico, uma vez que em seus trabalhos de pesquisa, seu objeto de estudo: a dança, a corporeidade e o comportamento dos casais, com enfoque maior aos passos do mestre sala, ela nos diz que:

[...] ...outra grande modificação que percebi, analisando um banco de dados fotográficos, na virada do século passado, não tenho bem certeza do período, mas é por volta dos idos dos anos 2000, talvez pelo e com o advento da internet, das redes sociais, das câmeras fotográficas digitais e da grande popularização da fotografia, que aparece com mais frequência o registro do beijo na coreografia do mestre sala, mas o beijo na mão da porta bandeira... [...]”

Nesta nova fase, a partir dos anos 2000, a dança do casal recebe muitas influencias e novidades da modernidade, porem, mais recentemente, há uma busca pela tradição, que apesar de novos elementos agregados, há a busca pelo amor romântico, o resgate do romantismo, o amor é mais perceptível nestas últimas décadas, é mais notório esta divulgação do amor, a declaração de amor, de sentimento entre os indivíduos, “[...] acredito que as pessoas estão mais sentimentais nos dias de hoje....[...]”. Esta “fase” influencia também a dança do casal, uma vez que esta dança é uma narrativa, que discorre do momento, podendo estar aí uma das possíveis explicações para o aparecimento, com mais frequência, do beijo na mão da porta bandeira.

Após algumas demonstrações, ela se lança ao tema proposto de sua fala, que é o quesito mestre sala e porta bandeira, onde ela nos explica que é necessário o julgador entender que se trata de um estudo da cultura popular no sentido amplo. Em sua pesquisa de pós graduação ela cita Raimund William, do centro de Estudos Culturais, onde o autor afirma que a cultura popular, é a cultura de fato quando é construída para si, segundo Eliane, é exatamente o que foi realizada em solo brasileiro...

Eliane nos esclarece que o samba foi produzido a partir da “desafricanização” do homem africano, que foi trazido da África para o Brasil, e que teve que perder, forçadamente, a sua identidade cultural e religiosa original, e este homem, como forma de um subterfugio, se apropriou de partes da cultura do sequestrador, para que não morresse de banzo1, para que não morresse de tristeza do que ele deixou para trás, em sua terra natal. Esta desafricanização que ocorreu, muitas vezes já na saída do continente africano, quando este homem cativo perdia o seu nome, quando imposto lhe era imposto um nome cristão ocidental, quando do batismo católico, deixando este sem uma identidade, ficando confuso... “...quem sou eu? ...pra onde vou?”.

Com a diáspora africana, que ocorreu em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, este homem, desorientado culturalmente, conseguiu resistir através do tambor, do batuque, do atabaque, ele conseguiu uma espécie de resgate de sua identidade, a uma resistência, não a uma africanidade puramente dita, mas uma identificação às suas marcas corporais, que lembrava muito aos seus preceitos e identidade originais. Desta forma, este homem, construiu as religiões de matriz africana e todas as particularidades do toque, da percussão, as essências do que deu origem às bases do samba, que se tornou a grande marca de identidade do brasileiro, agora, independente da sua cor de pele, “[...] seja o negro, seja o branco, seja o índio, seja o mestiço, esta marca de ancestralidade está presente através do toque, do batuque e ficou a presença ancestral, garantida e guardada em nossos corpos... [...]”.


Ela vai além, explicando que na cultura brasileira, encontramos o samba, o dono do corpo, que na linguagem do povo de santo2, é uma outra maneira de dizer “Exú”, o “Orixá que é o princípio cosmológico da dinâmica, da troca de energias, a esfera, da comunicação e da individualidade”... uma expressão do professor Muniz Sodré. O escritor Nei Lopes, diz que o samba é correspondente do Orixá Exú, seguindo a mesma lógica, uma vez que este é o Orixá dono do movimento, que toma várias formas, e que continua caminhando sempre para frente, iludindo os seus adversários...”.
Seguindo este grau de raciocínio, ela cita a autora Sandra Haydee Pétit, que nos coloca a importante explicação de que o negro desenvolveu uma espécie de resistência no formato de antropofagia, ou seja, onde o homem, identificado como sambista, não mais africano, mas agora um brasileiro e vítima da diáspora, em uma resiliência, ele se abre ao novo, para “devorar” aquilo que as outras culturas lhe oferecem. Exatamente aí, que podemos identificar a dança da porta bandeira e do mestre sala.
Porem há algumas verificações, do tipo: “[...] porém, verificamos que o casal de mestre sala e porta bandeira não samba, não ‘sapateia’... não faz o requebro... mas eles dançam o samba de outra forma...[...]”. Eliane nos esclarece, seguindo a lógica dos autores acima, que o sambista assimilou as danças e passos, a postura e os gestos, e também os movimentos da cultura europeia. “[...]... comeu, engoliu, deglutiu, numa espécie de antropofagia cultural, e devolveu neste bailado... então ele dança o samba afro-brasileiro, utilizando uma linguagem da cultura europeia... [...]”. Numa forma de se fazer presente, numa forma de “agradar” o olho do outro, para assim ser aceito.

Segundo Nei Lopes, Exú finge que está morto, para agradar aos ‘trouxas’. Desta forma, Eliane nos fala que:
“[...]... quando você olha para o mestre sala, quando este dança, ele é o próprio movimento, ele quem movimenta o ‘axé’ da quadra, com seu leque, seu bastão, o seu lenço, e a porta bandeira gira, movimentando este axé, com seu mestre sala em volta, cortejando, girando, reverenciando, fazendo todo este ritual tomar conta de nossos corpos... até porque, vocês já observaram que quando o casal está se apresentando, parece que algo toma conta do nosso corpo, e a gente imobiliza, ninguém samba, quem assiste fica assim, imóvel, só quer ver o casal... podem acreditar... é Exú na roda, ele está lá dançando! [...]”

Quanto ao olhar do julgador, da importância do avaliador ou jurado perceber e entender toda esta linguagem corporal, que foi transmitida na oralidade de geração em geração. Esta importância de verificar todo este rito, toda esta ritualidade, saber respeitar toda a construção, respeitar as matrizes que ali estão representadas. Lembrando que a literatura e a marca ancestral de origem africana não é aquela tradicional e escrita, como as regras que a europeia determina, segundo ela:

 “[...] ...a nossa literatura é uma literatura de memória, é uma literatura pela oralidade, onde pode, ás vezes, haver apenas um aluno, todo conhecimento, na tradição africana, assim como é feito na casa de santo, a mãe ou o pai de santo ensinam para o filho, para o yaô, na individualidade, através da oralidade, baseado na memória, nada vem escrito... assim é na dança do casal, uma vez que não existe um livro que ensine a dança do mestre sala... tem isto escrito? Não tem! E é desta forma que acontece, o mais velho orienta, diz como tem que fazer, como fazer com os braços, os meneios dos pés,... se aproxima da porta bandeira... olha bem, assim está errado! Faz de novo!... e quem está aprendendo repete, faz de novo, até ‘incorporar’ o saber, na mente, na memória... é a oralidade, a marca ancestral africana que a gente tem...[...]”

Ela vai além, diz que o julgador, tem que ter esta compreensão de que há uma linguagem em movimento, onde “a oralidade é transmitida, onde verifica-se a palavra que é dita, a palavra que é sentida, olhada e verificada no corpo do mestre sala”, e é por isso que o olhar do julgador deve estar concentrado naquele momento, lendo cada letra que a ‘escrita’ da dança corporal do casal está transmitindo. Ela lembra da passagem do evangelho3 que diz “então o verbo se fez carne e habitou entre nós”... fazendo uma analogia da oralidade, da literatura ancestral na dança como manifestação do verbo aprendido e apreendido no corpo dos que dançam. Ela diz assim: “... é a palavra que entrou naquele corpo, onde o samba se fez dono daquele corpo, que o samba em congolês significa orar, rezar e implorar... e desta forma ele, o samba, se fez carne e habita entre nós através da dança leve e elegante daquele casal...”.

Desta feita ela entra no estudo sobre o quesito, uma vez que verificamos a sua complexidade estrutural e histórica, necessário se faz um amplo estudo de seus significados. Por isso a importância, da leitura, da vivência, das experiências, a fim de treinar os sentidos, treinar o olhar do julgador/jurado/avaliador. Eliane cita o importante trabalho realizado por Isabel Cristina, conhecida porta bandeira do carnaval gaúcho, que é coordenadora dos jurados do carnaval de São Paulo, onde desenvolve um importante ciclo de estudo e compreensão do Quesito [Será tema de outra coluna].

Tecnicamente falando, ela entra então, por premissa, no ponderamento e na adequação que o Jurado têm que ter, junto à instituição que contrata o trabalho deste julgador para os desfiles das escolas de samba, ou seja, tudo o que rege e tudo o que orienta a associação que está dirigindo e avaliando aquele carnaval e o que ela espera do julgador/jurado/avaliador. Junto disto, entra também o estudo do Regulamento, do Manual de Avaliação, dos critérios de avaliação no momento de julgar o Quesito Mestre Sala e Porta Bandeira, além, é claro, da regionalidade, das características dos casais nos diferentes lugares do Brasil e do mundo. Podemos verificar que não é tarefa fácil, saber de todos os significados da corporeidade, corporalidade, da linguagem visual, da história, das nuances, da ancestralidade e aliar tudo isso à “dureza” de uma nota, de uma avaliação, de um critério, de um regulamento que vai definir se aquele casal fez certo ou errado. Tamanha a responsabilidade de um julgador/jurado/avaliador.

Eliane, neste momento, agradece à Isabel Cristina, coordenadora de Jurados, que proporciona encontros e cursos preparatórios de sua equipe, que trabalha à exaustão para treinar a visão, os critérios e os balizamentos do quesito. Há toda uma preparação, para enfrentar horas de julgamento, aliado às dificuldades de conhecimento, tem também o cansaço, a estafa, e para isso há também uma preparação.

Tamanha a importância de conhecer o Quesito. Compreender a ligação do momento da apresentação com o “olhar do julgador”. Para quê se avalia [trata-se de uma competição, onde vence quem menos erra] e o quê se avalia? A avaliação é a observação do casal naquele momento, avaliando a performance, que é a sua dança e a sua indumentária; o jurado/avaliador deve estar isento de emoções e paixões... seja pela agremiação ou pelo casal... Também vale lembrar que a avaliação não é só dançar e estar bem vestido, o quesito é pautado pela emoção e pela alegria de dançar desta dupla que ostenta o pavilhão das Escolas de Samba. Cabe lembrar também de que o nome e o “renome” do casal e da escola também não devem influenciar nesta avaliação. Necessário se faz uma avaliação técnica, e para isso acontecer O CASAL e o JURADO, devem conhecer suas responsabilidades e saber que a avaliação competitiva é imprescindível.