terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Desabafo aos desavisados

Por Ramão Carvalho 

Samba... Agoniza mas não morre... Alguém sempre te socorre... Antes do suspiro derradeiro... Samba... Negro, forte, destemido... Foi duramente perseguido... Na esquina, no botequim, no terreiro... Samba, Inocente, pé-no-chão... [Música de Nelson Sargento - 1979].


Tenho percebido a crescente veiculação e posts de algumas pessoas elogiando as ações de alguns prefeitos da região metropolitana e do interior do estado, quanto ao cancelamento dos desfiles de carnaval. Os elogios lançados à estas iniciativas, se deve à inglória má administração das cidades, às quais, muitas delas, já foram referência cultural e pólo intensivo de artistas. Vale lembrar que nestas cidades, há uma Lei Municipal, amparando e legalizando a realização dos desfiles carnavalescos – que não fazê-lo, é ir contra a lei definida e aprovada pela própria cidade.

Vejo alguns comentários de pessoas desavisadas sobre estes cancelamentos dos desfiles, com palavras chulas, esdrúxulas, preconceituosas, muitas vezes de quem não tem o mínimo conhecimento de causa, de como funciona o carnaval, e que, munidos da facilidade das redes sociais, insistem em criticar e de se portar como “grandes entendedores” por detrás do escudo de um computador. Então, via redes sociais, estas pessoas desinformadas e do alto de sua errônea “sabedoria”, destilam todo o seu rancor e o seu ódio pelo outro, pelo desconhecido.


O carnaval, para os desavisados, é cultura, é a verdadeira e a pura cultura brasileira... Para quem critica o carnaval e elogia o corte das parcas verbas destinadas a este, deveria aprender que para iniciar os trabalhos carnavalescos, é preciso muito planejamento, o envolvimento de uma equipe técnica, de uma administração, de uma diretoria, que representa toda uma comunidade, que têm história, que é unida pelo símbolo de uma bandeira ancestral, onde seus fundadores tiveram dificuldades para criar e manter uma instituição frente ao preconceito do passado obscuro, que teima em ressurgir em nossos dias...

Por um lado concordo com os protestos, com a indignação da população e com todo o apelo por mais saúde, segurança, educação, mas, embutido à estes protestos e reclamações, clamo por mais cultura, por mais música, por mais dança, por mais samba, por mais carnaval... Além disso, mesmo com uma pequena verba, o carnaval gera capital de giro, em cidades com uma população carente, onde o dinheiro é distribuído, pagando costureiras, aderecistas, ferreiros, marceneiros, que moram, muitas vezes ali, na sua rua. Onde as escolas compram materiais e fazem a economia local girar... agora eu pergunto aos desavisados: onde você acha que este dinheiro [que será cortado do carnaval] vai ser aplicado?

Aos desavisados, peço que verifiquem as cifras desviadas por todas, eu disse TODAS, as siglas partidárias, em todos os níveis da esfera política, e comparem (aliás, nem dá para comparar), ao dinheiro investido no carnaval [principalmente o pobre carnaval gaúcho] que envolve, diverte, informa, cria, instrui, e, acima de tudo nos representa, nos dignifica, nos torna mais feliz... Estes valores, caros desavisados, investidos no carnaval, são ínfimos para um país rico de recursos naturais, mas pobre, muito pobre cultural e intelectualmente, e muito mais pobre na questão de visão crítica e inteligente de sua gente, que se esconde atrás de um teclado para, sem conhecimento de causa, lançar críticas e comentários sem fundamento e sem saber de fato o que acontece no seu município, estado ou país...


Volto a enfatizar a questão financeira e monetária, onde em nosso estado, por exemplo, a cultura é a última questão prevista em planejamentos. É disparado o estado que menos investe em cultura! Sim! Disparado! Com o carnaval não é diferente, considerando as grandes capitais, que têm desfiles de grandes escolas, é a menor verba, ficando Porto Alegre muito aquém de cidades como Florianópolis, por exemplo. Vale lembrar que as cidades da Região Metropolitana investem valores ainda menores e inexpressivos ao carnaval de suas cidades.

Torno a ressaltar que o problema deste país, não é a pequena verba destinada a este segmento cultural, e é sim, a falta de vergonha na cara destes políticos que roubam, desviam, produzem leis que os favorecem, que garantem requisitos e facilidades para aposentarem-se com poucos anos de trabalho... um país que poderia viver muito bem, não fosse sua mania de querer ser dar bem em tudo... na política do ganha-ganha... sem muito esforço, é claro!

O Brasil é o país dos impostos! Mas de impostos que não são aplicados corretamente, das taxas de importação, da burocracia que atrasa e deixa muito mais difícil a vida do trabalhador, dos pequenos, dos assalariados, pois encarece produtos de necessidade básica, sem contar naqueles produtos, falando apenas de cultura, onde a classe de baixa renda e pobre não tem acesso à livros, CD’s de música, filmes, internet... cultura...

Por outro lado, a nossa gente, com o seu jeitinho brasileiro, com a desgramada, malfadada e ingrata sina de querer enganar tudo e à todos de forma fácil, de ser o mais esperto, burlando as regras e cometendo pequenos delitos... e isso, caros desavisados, faz parte da formação deste país, desde os primórdios, aos desavisados, sugiro ler Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire e Roberto Damatta, entre tantos outros autores, para conhecer a gênese e a formação do povo brasileiro...

Agora, um aviso aos desavisados: não venha falar mal do carnaval! Pois o carnaval que como já lhe disse, é cultura popular, do povo para o povo, talvez o único acesso que o “povão” tem à música, à dança, ao percussivo ritmo que faz parte da história deste país. Esta gente sofrida, que trabalha dia após dia, que paga seus impostos, paga muitas taxas, e paga o super-salários dos políticos... talvez, desprezíveis desavisados, o carnaval seja o único acesso aos nichos de formação de idéias, a locais que informam, ensinam, divertem, envolvem de forma benéfica a população de baixa renda, e, faz da vida destes brasileiros muito mais feliz...