terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mês da Consciência Negra


Novembro chegou! Mais um mês da Consciência Negra está aí e com ele as declarações de que somos todos iguais. Quem conhece meu trabalho sabe o quanto falo, insisto e luto pelo respeito às diferenças. Esse é meu lema e é para quem acha que somos todos iguais que escrevo hoje.

A primeira diferença que quero ressaltar é justamente em relação a novembro. O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado no próximo dia 20, foi instituído pela lei 12.519, de 2011. A data faz referência à morte de Zumbi dos Palmares, que segundo estudos dos anos 70, foi morto nessa data, no ano de 1695. De 2011 pra cá, o dia virou semana, e a semana virou um mês de programações. Programações essas que fazem o mês de qualquer militante negro digno de deixar qualquer velhinho de barba branca com inveja em dezembro. Passamos os outros onze meses do ano dizendo coisas que muitos só param para escutar em novembro. É pouco, mas imagine você que acha desnecessário um mês de destaque às questões raciais, como seria se não tivéssemos nem isso.


A minha agenda já começa nessa primeira semana com uma roda de conversas com adolescentes de uma escola de São Leopoldo, na região metropolitana. Segundo a coordenadora, há somente duas alunas negras nas turmas de ensino médio, com quem vou conversar. Como acontece na grande maioria das escolas brasileiras, durante todo o ano letivo essa vai ser a única oportunidade de discutirem algo tão importante para uma sociedade como a nossa.

Nem preciso me colocar no lugar dessas duas gurias negras, porque eu já fui uma delas. E de certa forma, infelizmente, continuo sendo. Sempre fui uma das poucas negras por onde passei e, neste contexto de maioria branca, eu sou a "diferente". E o erro da nossa sociedade não está na diferença em si, mas na raridade em que os meus iguais estão nesses espaços. 

Por isso, minha fala com os adolescentes de São Leopoldo vai ser, mais uma vez, enfatizando as diferenças. Diferenças essas que são realidade para essas duas alunas negras, que ali são minoria, mas que vivem o que vive mais da metade da nossa população. Acredito muito nessas rodas de conversas e na troca que temos nesses momentos. Nessas oportunidades de falar olhos nos olhos e criar empatia nessas pessoas que por conta do discurso de igualdade não conseguem perceber que a maioria de quem morre nas mãos da polícia têm a cor de pele diferente da deles. Que a maioria das pessoas que moram na periferia das suas cidades ou que limpam a escola ou a faculdade onde estudam são diferente deles. Que se eles assistem televisão e se veem ali ou se olham os políticos do nosso país e encontram lá pessoas tão parecidas com as pessoas de sua família, para os negros isso não é uma verdade. E, principalmente, que todas essas diferenças têm a ver única e exclusivamente com oportunidade.


Não somos todos iguais e isso não é questão de opinião. É uma constatação que qualquer pessoa que olhe a sua volta e observe a nossa sociedade vai constatar sem o menor esforço. Por isso, sensibilize-se com o Novembro Negro e se abra para as discussões que este mês traz de forma tão incisiva o ano todo. E falemos das nossas diferenças até o dia em que, quem sabe, consigamos ter respeito por elas e sejamos, de fato, um pouco mais iguais.