sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Inspiração, poemas e lutas


Eu tinha uns 14 anos e a professora de Artes Cênicas nos propôs uma atividade. Tínhamos que pegar uma folha de caderno grande, deixar a sensibilidade falar e escrever um poema até o final desta folha. Assim fizemos e, logo depois, começamos a leitura de cada poema para o restante da turma.
Quando terminei de ler o meu, diante do elogio da professora, uma colega de sala que fazia teatro e achava estar um degrau acima de todos da turma por conta disso, não titubeou em dizer que o poema não era meu. A professora não estendeu o assunto, afinal, essa colega não tinha prova nenhuma de que o poema não era meu de fato.
Porém, na aula da outra semana, tínhamos que usar o poema de novo e eu havia esquecido o meu em casa. A única alternativa era fazer outro e eu fiz. Como ficou no mesmo nível do primeiro, e diante da quase impossibilidade de eu ter decorado dois poemas daquele tamanho para plagiá-los em sala de aula, me foi dado o crédito do meu trabalho.
Contei essa história porque em uma palestra para adolescentes em uma escola de São Leopoldo, na última semana, ao me ouvir falar das provações profissionais que uma mulher negra enfrenta, uma aluna disse não conseguir entender como as empresas conseguem fazer essa diferenciação.

Eu não posso afirmar, pelo menos não com a mesma certeza que minha colega afirmou que o poema não era meu, que ela fez o que fez por racismo, mas a sociedade em que vivo e nossa realidade me dão brecha para pensar que sim e que ver uma negra se destacar em algo que ela, se julgava tão boa foi demais para ela. O mesmo preconceito que faz com que colegas e professores de tantos negros e negras duvidem de nossa inteligência durante nossos anos escolares, nos segue em outras fases de nossas vidas. E não é exagero dizer que com mulheres essa prov(oc)ação é mais intensa.
Conceição Evaristo atentou para o fato de que "espera-se que uma mulher negra seja capaz de desempenhar determinadas funções como cozinhar muito bem, dançar, cantar, mas não escrever". Quando exercemos qualquer atividade que saia do limite que impuseram para nós, ficamos em constante observação. O olhar de dúvida não se desfaz nem mesmo quando comprovamos que somos realmente competentes. A admiração, que seria natural nesses casos, quase sempre se transformam em surpresa. E essa surpresa fica na espreita, esperando a primeira falha, do que todos somos passíveis, para virar certeza de que agora sim, tudo está indo para o seu devido lugar.
Quando dizemos que temos que ser duas vezes melhores, essa superação não se limita a questão acadêmica. Essa superação vai ter quer ser diária. E, por vezes, nosso adversário sequer tem um nível maior de habilidade ou de estudo, mas é alguém que conta com os privilégios da branquitude, que sabemos colocar sim, muitos de nossos colegas um nível acima de nós, inclusive nas funções aquelas que acreditam sem naturalmente nossas.
O que vivi naquela aula de artes não foi uma fato isolado e não aconteceu somente comigo. Muitas crianças negras cresceram sem entender porque as notas, por vezes, não correspondiam ao trabalho feito. Aquela também não foi minha primeira experiência e se repetiu, e muito, durante toda minha vida.

Quando somos muito pequenos e ainda não sabemos classificar o racismo, achamos que as pessoas estão apenas exercendo o direito que têm de não irem com a nossa cara. Quando descobrimos o porquê de tanta perseguição gratuita, tudo vira nó na garganta. Com o tempo, transformamos os nós em luta, e essa luta, em força. A sabedoria está em transformar essa força em inspiração porque nem sempre seremos respeitados no primeiro poema e vamos precisar dessa inspiração para escrevermos tantos quantos poemas a caminhada nos cobre.