quinta-feira, 19 de novembro de 2015

19 de Novembro - Dia da Bandeira

Imagem: reprodução/web

Obviamente que o dia 19 de novembro foi decretado em homenagem à bandeira nacional, porém, não consigo pensar, escrever ou falar em bandeira, sem lembrar dos panos simbólicos e sagrados do mundo do samba. Pensando na importância e nos significados que estas carregam, de toda a história de um pavilhão, por isso, lanço aqui, em singela homenagem às nossas insígnias sagradas, algumas referências e reverencias.

A origem da bandeira, pendão, lábaro, estandarte, pavilhão, assim como a gênese da palavra se perdem no breu da história, uma vez que pode ser verificada em diversos registros históricos. A nomenclatura bandeira também é controversa, mas suas explicações e grafias dão conta de que a formação do termo origina de “band”, banda, senha e sinal, + o sufixo “eira”. Este costume de representação foi introduzido na cultura brasileira desde meados do século XVI, através da prática de procissões religiosas, além da tradição da cultura africana de representar famílias importantes por suas cores.

Eliane Santos de Souza, Mestre em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense - UFF, professora do Curso de Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, em seu trabalho “Os signos da Porta-Bandeira e do Mestre-Sala”, nos esclarece as origens do termo, permeando com os significados deste para o povo do samba:

“[...] o estandarte, oriundo dos Ternos de Reis e dos Ranchos, traz diversos significados, porém aquele que tem a melhor expressão para o sambista é de ser o substituto dos ancestrais, e, mesmo sem saber esta informação, contida no dicionário, a reverência ao pavilhão nos indica o entendimento natural que o homem do samba tem por sua bandeira, nome formado pela palavra bandwa, do latim medieval, proveniente dos povos godos (germânicos), que significa sinal e do sufixo de origem latina, da língua portuguesa “eira”, que quer dizer: noção coletiva de intensidade ou quantidade. Logo, bandeira significa sinal de reunião de muitos! Daqueles que já se foram, dos presentes e dos que virão. Ancestralidade, presença e porvir bordados em um pano de seda que a porta-bandeira desfralda acima das cabeças reunidas em uma roda de samba... [...]”

A história da bandeira no carnaval é marcada pela origem do estandarte, que mais tarde foi substituído para dar lugar à bandeira, porém, vale lembrar que aqui no sul do país esta tradição, de portar o estandarte, não foi extinta, ela permanece viva... Tão sagrada quanto à bandeira oficial, porém, como muito bem definido por Onira Pereira: “[...] O estandarte é da guerra, vem na frente, abre caminhos, para quando a luta estiver vencida, vir a bandeira vitoriosa [...]”.

“[...]... tendo marcado presença nas ruas do Rio com os ranchos, na virada do século XIX para o XX, o estandarte– simbolicamente um substituto dos ancestrais e signo de comando – passou às escolas de samba e deu vida ao bailado do mestre-sala e da porta-bandeira. Foi na escola de samba de Ismael Silva, segundo relata Ivette dos Prazeres, que aconteceu a substituição do estandarte pela bandeira. A inovação foi introduzida pelo pai de Ivette, Heitor dos Prazeres, um dos bambas da primeira hora do samba no Largo do Estácio. Naquela época, “as baianas” eram homens fantasiados; Heitor, utilizando o pano-da-costa, parte tradicional da indumentária de baiana que vestia, mostrou como a forma da bandeira possibilitava à porta-estandarte uma maior liberdade e agilidade nas evoluções.A escola havia alterado o ritmo do samba, tornando-o mais rápido, com a introdução do surdo de marcação,instrumento que favoreceu a conjugação canto/dança/evolução para os sambistas. Heitor dos Prazeres foi reconhecido como o sambista que “trouxe a primeira bandeira”, já que levava a da Deixa Falar para as agremiações carnavalescas que freqüentava... no início dos desfiles, a bandeira era também um quesito a ser avaliado pela qualidade de sua concepção e pela capacidade do grupo em protegê-la e apresentá-la. Mas o seu significado e importância foram além desse aspecto funcional. A bandeira, suas cores e os símbolos bordados no tecido são um forte elemento de identidade das comunidades de sambistas.[...]”.Dossiê das matrizes do samba do Rio de Janeiro – RJ. 2006.

A bandeira é uma simples peça de pano retangular, com cores, insígnias e emblemas que representam uma nação, estado, instituição religiosa, agremiação política, recreativa ou desportiva... Porém, uma bandeira nos dá o sentimento de pertencimento, de grupo, de representatividade, geralmente marcado por um orgulho exacerbado, que não se mede, que não se pode mensurar, nem tocar, algo sem muita explicação... A bandeira é uma simples peça pano, porém, seus significados podem causar uma emoção extrema, motivando seus adeptos e seus seguidores ir à luta... Não medindo esforços para vencer...

No mundo do samba, é esta mesma bandeira quem fomenta e dá forças aos carnavalescos a pensar e fazer o carnaval, trabalhar e confeccionar lindas fantasias, elaborar enredos, compor sambas magníficos, fazer um arranjo elaborado de canto, cordas e de percussão, desenvolver rebuscadas coreografias, belíssimas alegorias... enfim, tudo é feito por uma bandeira!

A bandeira quando agitada invoca os presentes a assistir, a contemplar os símbolos, a admirar o pano desfraldado, trazendo no movimento toda a tradição do samba, toda a história daquela agremiação. Ligando passado e presente, e, desejando um futuro vitorioso, de fartura e de prosperidade para aquela comunidade. A bandeira em movimento é pura energia, é luz, vento, ação... é a essência de nossas agremiações, escolas, bloco, tribos...tamanha a importância de um símbolo!

Neste 19 de novembro, não podemos esquecer que é o dia da Bandeira Nacional, aquela verde e amarela, com o circulo azul contendo as estrelas do céu brasileiro, e que representa o todo, toda a nação, de gente que vive e ama o país do samba e do carnaval, e é por isso que vamos dar um viva:

Viva a bandeira nacional! Viva a bandeira do carnaval!


FONTES:

FERNADES, Nelson Nóbrega. Escolas de samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados. FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Ediouro Publicações, 2004.
Rio de Janeiro 1928-1949. RJ: Coleção Memória Carioca, 2001.
GONÇALVES, Renata de Sá. A dança nobre do carnaval. Aeroplano, 2010.
THEODORO, Helena. Dossiê das matrizes do samba do Rio de Janeiro. RJ: IPHAN (2006).
SOUZA, Eliana Santos de. “Uma semiologia do samba: o bailado do mestre-sala e da porta-bandeira”. (Mestrado em Ciência da Arte) – Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2003.
___________. “O bailado do Mestre-sala e da Porta-bandeira”. In: “Palavra Fatal (ao pórtico da semiologia)”. Latuf Isaias Mucci (org.). Rio de Janeiro: Book Link, IACS/ Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, 2002.