sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Um caso de racismo bem típico


No último final de semana, mais uma vez o racismo foi responsável por uma movimentação bombástica na internet. Após ter divulgada nas redes sociais sua opinião dada à revista Atrevida, sobre meninas de tranças nos cabelos, Caíque Gama, da banda Fly, teve sua página bombardeada de mensagens repreendendo sua fala racista. O episódio mostra que cada atitude de racismo no Brasil, quando toma grandes proporções, acaba repetindo um script bastante previsível e que escancara o jeitinho brasileiro de viver o preconceito racial.

O primeiro, e talvez mais grave por ser a base de todo o resto, é o de achar que racismo é opinião. Não é. Existe um motivo para que muitos não vejam beleza em traços e características físicas da raça negra e isso, por si só, já daria um texto. Essa "predileção" por tudo que é caucasiano vem de uma massificação racista que vivemos desde que nascemos. Esse "gosto" faz com que a gente ignore a beleza de mais da metade da população brasileira e tenha verdadeira adoração por uma beleza nórdica que raramente encontramos por aqui. E essa adoração, definitivamente, não é questão de opinião.

Segundo, a negação. Ao ser perguntado o que pensa sobre tranças, Caíque disse que para quem tem "cabelo ruim" é a salvação. Muitas de suas fãs que foram defendê-lo em sua página o fizeram sob o argumento de que, em nenhum momento, ele disse que falava de negros. E precisa? Alguém aqui tem alguma dúvida disso? Quem conhece alguém de cabelos lisos que já tenha ouvido isso em relação aos seus cabelos? Existe uma legião de muitas gerações de mulheres de cabelos afro, crespos e cacheados que ficaram carecas, literalmente, tentando se livrar de seus cabelos naturais. Eu mesma faço parte desse grupo. Só reconhecemos o quanto nossos cabelos são lindos e só pudemos desfilar com eles orgulhosas por aí depois desse trauma. E sobre tranças, especificamente, também não é necessário dizer que as negras são maioria entre as mulheres que as usam. Então, Caíque não verbalizou, mas disse e entendemos muito bem a mensagem.


Em terceiro eu destacaria a tática de ataque como defesa. O cantor divulgou uma nota tentando explicar o inexplicável depois da repercussão negativa. Nela disse que racista é quem associou racismo a sua declaração, sem ele ter citado nenhuma etnia e quem foi em sua página xingá-lo de "branquelo azedo". Não sou a favor de rebater um preconceito com outro, mas chamar alguém de "branquelo azedo" só vai ser racismo no dia que brancos saírem do papel de opressores. Racismo reverso não existe! (repita isso quantas vezes por dia achar necessário) Chamá-lo de "branquelo azedo" talvez não tenha sido muito educado, mas racismo, o de verdade, vai além da falta de educação... é crime.

Em quarto, e esse eu aponto como a característica mais triste, é a covardia. Uma situação dessas poderia servir para que Caíque, ou qualquer outra pessoa no lugar dele revisse seus preconceitos. Dizer que não teve intenção não apaga o acontecido. O episódio fez muitas outras declarações do cantor virem à tona, desde postagens homofóbicas no seu twitter a uma amiga de infância que disse ter sofrido anos de agressões nas mãos dele por ser negra. Essa última, especialmente, para mim deixa claro que sua declaração sobre tranças não foi uma fala mal colocada ou sem intenção. Foi, sim, carregada de racismo. E ele sabe disso, apenas achou que não iríamos perceber. Não assume porque, para isso, é preciso coragem.

Por fim, para mostrar que realmente não é racista, Caíque Gama e seus companheiros de banda começaram a compartilhar fotos abraçados a fãs negros. Abraçar, beijar ou até mesmo casar com um negro ou uma negra não liberta ninguém de racismo. E é um erro achar que nossa luta é para que todos se amem. É, sim, para que haja respeito.

De bom nisso tudo fica a certeza de que os anos de silenciamento estão com os dias contados. Foi uma enxurrada de vozes dispostas a gritar se fosse necessário. Foi mais um ato racista que não ficou em vão. E estamos prontos para desconstruir e enfrentar tantos quantos forem necessários. Eles não passarão.