quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Sejamos militantes


Esses dias um amigo me pediu para explicar o que é o movimento negro e sua pergunta foi: "o movimento negro é contra o quê?"
Conversamos sobre o assunto, mas fiquei intrigada com a maneira com ele fez sua pergunta. A palavra "contra" bateu como um sino na minha cabeça. 

Eu mesma costumava frisar, até bem pouco tempo, que não fazia parte do "movimento negro", e me excluía não por vergonha ou discordância, mas por não achar que eu tinha bagagem para me dizer parte de organizações e grupos que lutam por todos nós desde o tempo em que ainda éramos escravizados. Não me sentia à vontade em me incluir em conquistas tão grandes.

Há um tempo, porém, aprendi que movimento negro é exatamente o que o nome diz, isto é, é todo movimento que não se deixa paralisar pela desigualdade racial que vivemos.

Geanine Escobar numerou muito bem algumas dessas atitudes: "Movimento Negro é a juventude negra rimando, fazendo break e beat box na esquina; Movimento Negro é ser negro, negra e não aceitar piada racista no cotidiano, é chamar a atenção do amigo (a) branco (a) que teve uma atitude racista para que reflita sobre o que fez ou falou; Movimento Negro é a criança negra que se aceita linda, assim como qualquer outra criança branca e repreende o adulto preconceituoso que fala mal do cabelo dela; Movimento Negro é a roda de pagode da família negra em casa, na casa do vizinho ou nos palcos da vida, aquele pagode que leva a musicalidade negra por onde passa; Movimento Negro é a rainha ou passista negra da escola de samba que se orgulha de ser negra, de assumir o cabelo crespo, as tranças, mesmo que a sociedade e a mídia racista imponha a ela o processo de embranquecimento para ser bonita (...)" e por aí vai.


Depois que entendi isso, vi que esse movimento é bem maior do que parece e que faço parte dele desde muito nova. Lógico que existe uma movimento organizado, que merece ter seu trabalho respeitado e reconhecido, mas acho que algo os dois movimentos têm em comum, a sensação de que estamos mesmo contra tudo. 

A fama de eterna insatisfeita ou de alguém que só tem um assunto nem me abala mais. Em um mundo cada vez mais segmentado, é normal quem luta contra preconceitos ser visto como alguém que é contra todos que têm privilégios. Por isso, feministas parecem estar contra homens, o movimento LGBT contra héteros e nós, do movimento negro, contra brancos. Ideia errada. Toda luta tem um adversário e o nosso é o preconceito e/ou os privilegiados que os reforçam.

Não estamos contra o mundo, mas a nosso favor. Por uma questão de sobrevivência, inclusive. E foi o que respondi ao meu amigo. O movimento negro é a onda a nosso favor em uma sociedade onde a corrente contrária tenta nos levar. Então, seja em um grupo maior, seja em pequenos gestos, sejamos militantes.