quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vencedores como Serena


Esta semana eu parei na frente da TV para assistir a um jogo de tênis, um esporte que me é completamente estranho. Fiquei um tempão ali, sem entender nada da pontuação, sem saber que campeonato era aquele e sem ter a menor ideia de quem estava ganhando. De um lado da rede estava Serena Williams; do outro, sua irmã Venus.

Eu poderia jogar o nome delas no google para fazer um texto aqui cheio de dados da carreira das duas, ou ainda fazer uma pesquisa, copiar e colar para mostrar o quanto o Grand Slam é importante, mas não vou fazer isso, porque, eu não saber os detalhes não me deixou menos fascinada com o que assisti.

Tanto fazia quem estava ganhando, para mim as duas eram vencedoras. Eram duas mulheres negras, disputando um campeonato importante de um esporte altamente elitizado, o que, consequentemente, exclui negros e negras pelo mundo. Para isso também não preciso de dados, basta observar o cenário desse esporte para entender porque as irmãs Williams são um fenômeno.


O jogo ao qual assisti reflete bem como eu vejo a realidade que nós, mulheres negras, vivemos. Pra começar, o espanto que causamos quando não somos mais únicas em uma posição. Passei os anos da minha faculdade de jornalismo ouvindo da família e de amigos, que era boa e que estava na hora da Glória Maria se aposentar porque estava preparada para tomar o lugar dela. Percebem o que está por trás disso? Enfrentamos um mercado que não representa no topo o número de negras que somos na sociedade como um todo. Nos segregam em poucas vagas, apenas o suficiente para que o restante fique confortável a ponto de nos dizer que se aquela lá chegou, o resto não chega porque não se esforça ou porque não quer. Com mulheres negras, isso é ainda mais cruel, afinal, estamos na base de qualquer pirâmide.

Para mim, sempre foi um absurdo acreditar que só cabe uma ou duas de nós seja lá onde for. E não podemos mesmo, de forma alguma, acreditar nisso, porque a consequência é vermos umas às outras como inimigas e concorrentes. Se cairmos nessa de que poucos podem chegar, por uma seleção natural muitas vão acreditar que para vencer, primeiro terão que derrubar quem já chegou lá.

Não somos inimigas, somos irmãs, como as Williams. Quem venceu tem que servir de inspiração para cada uma de nós. Como elas fizeram, vamos mostrar a quem duvida que mesmo quando estivermos em lados opostos do jogo, teremos a mesma ligação quando a competição acabar.

Isso é colocar em prática a expressão “Ubuntu”. Eu sou, porque nós somos. Mesmo sem conhecer uma regra sequer de tênis, amei o espetáculo de representatividade. O abraço de Serena e Venus no final do jogo me emocionou e selou a vitória de todas nós. Ninguém perdeu naquela quadra, nem mesmo Venus... todas vencemos com Serena.