quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vamos falar sobre negritude??? (Vamôôôôôôô!)


Falar sobre negritude é uma decisão que, como qualquer outra, traz consequências. A mais significativa, na minha trajetória como militante, é o quanto isso pode ser determinante para nos afastar ou nos aproximar das pessoas. Quando falamos de militância em redes sociais, pessoas muito próximas, membros da família, inclusive, te excluem porque cansam de te ouvir falar tanto no assunto. Como culpá-los se eu mesma canso um pouco a cada dia? Porque se ouvir é cansativo, garanto que passar uma vida tentando mostrar para as pessoas o óbvio enquanto elas te fazem parecer uma paranóica, que só diz coisas absurdas e sem sentido, também não é nada prazeiroso.

Respeito quem não quer me ouvir, mas não posso e não vou parar. Não tenho essa escolha e mesmo que tivesse não seguiria por esse caminho. Primeiro porque não falar sobre o assunto não fará com que eu deixe de viver o que vivo. E segundo porque se muitos se vão, na contramão, muitos se aproximam. A quantidade de negros e negras com mensagens de identificação e agradecimento são em maior quantidade. O que não quer dizer que o amor que eu ainda sinto pelos familiares e amigos que se afastaram seja irrelevante, mas não posso negar a força do sentimento de dever cumprido.

Os anos de falsa democracia racial ainda fazem com que muitos acreditem que não falar no assunto seja o melhor a se fazer e que trazer a temática à tona fortalece preconceitos. Alguns chegam a acreditar que isso, sim, é que é discriminação.
Pois bem, eu estou no time dos que acham que discutir, trocar ideias e experiências talvez seja o melhor caminho para criar empatia. E, uma vez a gente se colocando no lugar do outro, o respeito pelas diferenças, desde históricas a estéticas, é consequência.
A ignorância, no sentido de desconhecer, leva a muitas conclusões erradas não só do que o outro é, mas também do que são suas batalhas. Entre esses equívocos está o de achar que falar de negritude seja falar apenas de racismo, por exemplo. Discutir racismo não tem como não ter uma parcela importante nas nossas discussões por suas consequências, afinal ele mata, não apenas corpos, mas sonhos e oportunidades. Porém, falar de negritude também é falar de superação, também é dividir as batalhas vencidas (e temos muitas), também é mostrar a força que nossa caminhada já nos trouxe e dividi-la com aqueles que ainda não conseguiram apertar o passo para acompanhar. Falar de negritude é desconstruir o preconceituoso, mas também é empoderar um irmão ou uma irmã e para isso é necessário muito estudo e conhecimento. É sentar o saldo positivo e o negativo à mesa para reafirmar quem somos e o que podemos. É ter quem abraçar para multiplicar as conquistas ou para dividir as angústias porque essas são experiências diárias para quem não foge da linha de frente.
Quando criei o blog EM NEGRITTO, há cinco anos, foi para poder falar sobre todas essas vivências do meu local de fala, sob a ótica da mulher negra que sou, por já ter tido provas de que muitas das discriminações que sofri foram por conta do silenciamento que tentam nos impor. Hoje, a convite de Israel Ávila, e com a mesma convicção de que falar, falar e falar traga, sim, resultados, estou oficialmente de volta. Pra quem também acredita que esse diálogo seja necessário, esse será mais um espaço para essa troca daqui pra frente. 
Então, sejam bem-vindos à coluna EM NEGRITTO!