segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Caminhos interrompidos


Faz uma semana que estou tentando escrever sobre as imagens dos arrastões nas praias do Rio e de jovens negros sendo retirados de ônibus que saem dos subúrbios da cidade em uma tentativa de evitar que eles aconteçam. 

Demorei porque eu mesma estava tentando digerir tudo o que penso sobre o assunto. Pois antes mesmo que eu conseguisse, veio outro soco no estômago. Herinaldo Vinicius da Santana, com apenas 11 anos, foi assassinado com um tiro de um policial na favela do Caju, onde morava. Como as pancadas têm sido em escala industrial, vou escrever sobre as duas coisas neste mesmo texto. 

E o que elas teriam em comum? Tudo. E não enxergar a relação das desigualdades no nosso país está entre uma das maiores barreiras que enfrentamos para ultrapassá-las. Sempre que discutimos cotas raciais nas universidades, por exemplo, ouvimos o clichê "reparação dos anos de escravidão pra quê? tudo aconteceu há tanto tempo! já acabou!"


Pois, fatos como os dois que citei nos mostram que, na prática, nada acabou. Estamos vivendo consequências dos quase quatrocentos anos de escravidão, tão presentes e reais hoje, quanto nos primeiros quinze dias de abolição. 

Uma foto postada por uma moradora de Ipanema deixa isso muito claro. Da sua sacada, ela fotografou um grupo de adolescentes negros na calçada com a legenda "Que pena ver meu Rio assim... imaginem no verão". Minha pergunta é: se fosse um grupo de adolescentes brancos, com a mesma legenda, entenderíamos a mesma mensagem? Óbvio que não. O que essa moradora da zona sul, e muita gente não faz, é entender, antes de qualquer coisa, o que fez com que hoje um grupo de adolescentes negros seja interpretado como um grupo de bandidos, sem que a gente sequer precise especificar isso em uma legenda nas redes sociais.

Peguemos então, como exemplo, Herinaldo, que nem teve a chance de chegar à adolescência. Voltemos a 1888 para saber onde estavam seus ancestrais. De outro lado, façamos o mesmo com a moradora da área nobre da cidade. Bingo!!!! Foi aí que tudo começou! A árvore genealógica do Brasil explica por que, hoje, preto está tão longe da praia a ponto da moradora da orla achar que o Rio é, de fato, só "seu".

Não podemos dissociar problemas sociais de raciais em um país que se ergueu, e ainda se sustenta nas bases sólidas de uma escravidão que se justificou pela cor da pele. Temos que perder menos tempo dizendo que essas questões terminaram, ou sequer existiram no Brasil e nos concentrar na raiz, onde tudo começou. Porque é aí que está a resposta para a imagem que muitos ainda têm de adolescentes negros andando  juntos, para as armas apontarem, na maioria esmagadora das vezes, para o corpo negro, para que a comoção causada ao ver esse corpo tombar seja inversamente proporcional à melanina que ele carregou em vida e para que interrompam a caminhada de nossos jovens, porque está aí também o motivo pelo qual não queiram que eles cheguem não só nas areias da praia, mas nas realizações da vida adulta.