sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Furacão Heleninha


Todos sabem que existem personalidades marcantes nas nossas comunidades e agremiações que realmente carregam a identidade daquele local. Em se tratando da temática samba diversos nomes surgem nas nossas memórias. Especificamente pra comunidade da laranja existe um nome que, com toda a modéstia, é lembrado pelos seus pares.

Hoje, aqui onde a cultura popular tem seu espaço certo, contaremos parte da história, experiências, expectativas e realizações de uma grande guerreira. Samba no pé marcante e com própria assinatura... A entrevista carrega o nome Helena Beatriz Fernandes, a Heleninha, madrinha de bateria da escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina.

O caminho dessa grande destaque do carnaval é inigualável, transcorrem-se quase 30 anos de experiência entre as linhas amarelas.

Sua carreira iniciou abrilhantando a passarela do samba pela agremiação Unidos da Zona Norte. No lugar do nervosismo, Heleninha bravamente decidiu dar lugar a autoconfiança e desenvoltura, o que a tornaram destaque naquele momento. Começara ai a trajetória de uma estrela das festas de momo.

A herança carnavalesca é quase que carregada geneticamente. Seu genitor, um pai que, fora intérprete, coordenador da ala de baianas e conselheiro da escola de samba Imperatriz Dona Leopoldina. Sua mãe fora conselheira, coordenadora da ala de crianças e departamento feminino. Seu irmão primeiro mestre-sala. Sua filha Nataly, esta já possui um extenso currículo nas passarelas: rainha mirim, integrante da ala de mulatinhas, porta-estandarte e por fim porta-bandeira.

A estrela teve grandes passagens pelo carnaval sul-riograndense, destaca-se suas participações nas escolas de samba Unidos da Zona Norte, Lomba do Pinheiro e Acadêmicos de Gravataí.

Sua dedicação e amor por escolas que trazem de berço a essência da comunidade vibrante e participante, são fatores fundamentais para a estrela.


Quando o assunto é inspiração a musa da laranja cita a grande estrela das avenidas Luiza Brunet, uma das musas que mais deixa saudade nas avenidas. A ex-modelo foi por muitos anos rainha e madrinha de bateria da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense. O que mais encanta aos olhos de Heleninha sobre Luiza Brunet é a beleza e o samba no pé, sem ser vulgar, que sempre atraíram os holofotes sobre a artista. Pelo visto o espelhamento foi válido, pois hoje na passarela do samba do Estado os holofotes são seus...

Pode-se dizer que o amor pelo carnaval guiou-a diversas vezes. Perante diversos problemas de saúde de integrantes de sua família, Heleninha nunca se deixou desmotivar. Em 2012, seu marido teve episódio de doença. Sua filha e irmã ajudaram-na a manter-se firmes. Em reunião familiar, deixou claro que o compromisso com a escola e com a comunidade deveriam ser mantidos e com isso, desfilaria, sobretudo. Muitas foram às pessoas que a ajudaram. Sua fantasia e adereços foram confeccionados em apenas uma semana. Nesta semana a tristeza a assolou, sua mãe veio a falecer e como se não bastassem as preocupações e a dor da perda, seu marido estava por ser internado para cirurgia.

Já na avenida, a bateria ao ver a madrinha, entre lágrimas a recepcionaram dando o todo o apoio necessário, ao entrar na avenida, mesmo com o coração apertado, seguiu em frente, cumprindo com seu papel junto a comunidade. Força e determinação, nada mais pode-se declarar.

Personalidade marcante de um ser humano simples e verdadeiro. Assim se define Heleninha.

Durante entrevista, ela solta o verbo ao ser perguntada sobre o que mais gosta e o que mais a entristece no nosso carnaval.

“(...)Complicada essa pergunta... mas vamos lá! Gosto da adrenalina do dia do desfile, tem pessoas que não entendem. Fico suando frio e dá calor ao mesmo tempo. Dor no estômago também. Não como nada! Passo a líquidos. Meu marido não pode nem me olhar...(risos) coitadinho. E do que não gosto... do mau uso do dinheiro, da falta de comprometimento com os “desfilantes”, dinheiro as vezes suado para investir na fantasia. Não gosto do descaso com nossa avenida... Não gosto de algumas pessoas que, por exemplo, colocam uma câmera fotográfica no pescoço e se acham da imprensa, mas fazem visitações apenas nas grandes escolas, as pequenas parecem não existir.. .e por aí vai (...)”
                                                                                                                                         
AMOR PINTADO EM TONALIDADE DIFERENTE

Falar de Heleninha Fagundes e não falar de Imperatriz Dona Leopoldina é como tratar de bossa nova e não se lembrar do saudoso Tom Jobim.
Pode-se diz que em seu coração corre sangue de tonalidade laranja, um sangue vivo e enriquecido pelo amor que de contrapartida a comunidade lhe entrega.


De personalidade imponente Heleninha é uma das peças-chave para a escola: discute em prol de melhorias, trabalha naqueles dias de aperto da reta final e investe, tudo porque, a visionaria acredita naquela a qual trata como membro de sua família.

Quem acompanhou o carnaval passado notou que a personalidade não esteve presente. Heleninha diz que isso se deu por não concordar com a colocação da agremiação (7º lugar em 2014). Ela foi então para as redes sociais expor sua indignação. Ela comenta sobre o fato: “(...) a gestão passada não gostou, 2014 baianas sem adereços, mulatas descalças, ritmistas sem recursos, falta total e geral de administração (...)”.

Certamente os altos e baixos circundam esta relação, mas a personalidade não se abala: “Óbvio que tem os que me odeiam, mas a grande maioria que me ama supera, Já não consigo mais viver longe dela (risos)”, diz Heleninha.

Amor incondicional, completo e absoluto, que não impõe condições ou limites para se amar, está é a relação entre Heleninha e Dona Leopoldina.

Finalizando a entrevista, pedimos a personalidade para que deixasse um recado para os leitores do Setor 1, o qual consta na íntegra a seguir:

“Sei que estamos desacreditados com nossa avenida e com alguns presidentes das escolas, mas não podemos deixar com que acabe com nossa festa popular. Em 2015 tive a certeza que não posso ficar longe daquela que faz parte da minha vida.”

Vórtice de emoções e sentimentos... Entre plumas e paetês, e na batida marcante do coração da avenida, nada a desanima. A alegria em pessoa com samba marcante... Helena Beatriz Fernandes, 28 anos de amor “laranja” pela festa popular, foi nossa entrevistada nesta data.