sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Histórias de Adolfo Giró


A coluna Ouvindo Histórias do Setor1 ouviu um ícone do carnaval de Porto Alegre. Adolfo Giró, atual presidente de honra da Escola de Samba Embaixadores do Ritmo, que esteve por muitos anos dirigindo a escola, nos conta sua história e alguns fatos inusitados de sua vida carnavalesca. Iniciou nos dizendo de suas origens, filho de um uruguaio de Artigase a mãe, uma brasileira descendente de franceses. Nasceu e cresceu nas cercanias da colônia africana¹.

Semblante tranquilo, batucando os seus dedos na mesa, o baluarte, de 84 anos, mas de olhar firme, me contou que começou no carnaval na Embaixada da Alegria, bloco que vinha de uma dissidência, e que deu origem ao Bloco Namorados da Lua. Conta que para não ficar contra os amigos que ficaram dos dois lados das facções carnavalescas, ele e outros amigos resolvem, por volta de 1950, juntar forças e decidem fundar a Embaixadores do Ritmo.


“[...] ...naquela época, eu era um guri novo, 60 quilos, mandava um pé... o que modéstias a parte, eu ia para o salão e não tinha brincadeira,  e mandava ver...Nesta época também, o porta estandarte eram homens, porque nesta época as escolas não tinham ala feminina... eram todos homens nos blocos, então, como eu dançava na imaginação de alguém, e na minha imaginação também... fui dançar com o estandarte. Foi então que me dediquei, de 1950 até por volta de 1960 fui o porta estandarte... ganhei diversas medalhas [equivalente ao Estandarte de Ouro de hoje]... tempo bom... [...]”.

Ele nos explica que quem carregava e portava o estandarte era um homem, pois nesta época não tinham mulheres, eram só homens que desfilavam nos blocos... ele faz uma pausa, olha para o horizonte, balança a cabeça positivamente, e, com olhos marejados, volta a afirmar  que naquela época tinham bons porta estandartes:

“[...]... lembro-me de muitos,de grandes porta estandartes... lembro de um que era o Cláudio Pires, acho que era este o nome dele, era dos Bambas da Orgia... e naquela época, vinham dois ou três caminhões cheios de gente... sempre o primeiro a descer era o porta estandarte... e se posicionava, para servir de referencia para os demais da escola, ou do bloco... Até quando parava a bateria o estandarte ficava neste movimento... vai e vem, vai e vem... num movimento contínuo... de leve... sem parar... era bonito de se ver... era a tradição, o estandarte sempre vir na frente...[...]”.

Diversas foram as experiências, boas e ruins, foram muitos carnavais, desfilando a frente do Embaixadores, sempre portando o estandarte. Giró nos conta que tinha que ter atenção, porque os carnavalescos da época “saíam na mão” quando não gostavam de algo.


“[...]”... eu lembro que tinha uma escola ou bloco, Aí Vem a Marinha... bloco da “pesada”, pois era agremiação de estivadores, a maioria...e na Miguel Teixeira tinha um coreto... de um bloco que conflitava com eles... que era um bloco na maioria de funcionários públicos, pessoas que presavam pelas boas vestimentas... e eles não se gostavam... lembro que uma vez o nosso ônibus parou, eu desci com o estandarte, e o presidente deles (da Marinha) gritou: ‘O Peixão (apelido do Giró na época), pode passar por aqui, pode passar por cima de nós... os outros não’... se referindo ao bloco dos funcionários públicos, que eram considerados os ‘engomadinhos’ da época... e a briga entre os blocos se formou... logo após o Embaixador passar... Deixaram a nossa turma passar porque eu jogava bola com eles...depois que passamos começou a briga...[...]”.

“[...] Por volta dos anos 60 eu parei... depois vieram as mulheres para o carnaval, daí tudo mudou de figura... surgem as porta estandartes mulheres, depois veio as porta bandeiras... as passistas... Daí eu me dediquei aos trabalhos de direção da escola, dirigindo a escola... [...]”.

“[...] ...Vivi numa época em que guardávamos dinheiro, juntávamos dinheiro para as nossas fantasias... os carnavalescos não ganhavam dinheiro da prefeitura ou do poder público como hoje... eu guardava sempre uma parte do dinheiro para a minha roupa, pra minha fantasia... isso era costume, os carnavalescos tinham esta atitude... claro que eram outros tempos...[...]”

Adolfo Giró explica que o Embaixadores do Ritmo passou por muitos locais, muitas foram as dificuldades... de lembrança ele conta algumas, lembra que ela se localizou na Avenida Taquara, no bairro Petrópolis, depois pra avenida São Luiz, no Bairro Santana, na Glória e depois a escola foi para a Avenida Ipiranga:

“[...] Quando eu cheguei na Ipiranga com o Embaixadores, o local era chamado a ‘Vila das Placas’... lugar violento... chegamos lá, cercamos um espaço, e alojamos um senhor de São Gabriel, que ajudou a cuidar do espaço, trazendo seus parentes para cercar a área de escola. Embaixadores ficou 15 anos neste local... Sou bem recebido até hoje no local...[...]”.

Nos conta também da herança e do talento do filho Girozinho na direção da entidade e na experiência de fazer carnaval... conta que levava o Girozinho nos ombros quando ia para os ensaios da Escola na Avenida Mariante, outro local que a escola utilizou... ele comenta que se não o levasse ele fazia uma choradeira! [risos]...

Destaca que houve um carnaval marcante na sua vida e na da sua escola, com o enredo “Épocas e Glórias do Theatro São Pedro”, fazendo uma homenagem ao Theatro São Pedro a para a Dona Eva Sopher... numa época em que era raro fazer homenagens... o carnavalesco era o Tigrinho, o João Lacir, na época era funcionário do Theatro São Pedro e que deu a ideia de fazer o enredo em homenagem (Giró se refere ao enredo de 1987)... ele conta que na hora do desfile deu um temporal muito forte, e ele ficou bem preocupado com ela, correu pra ver o que acontecia, e a chuva forte caía... e viu que ela estava lá, cantando com energia e emoção, enfrentando a chuva...ele diz que foi uma das cenas que mais o comoveu até hoje...

Por outro lado ele lembra com olhar longe, das dificuldades passadas pela escola e pelo carnaval... comenta que muitas vezes não tinha recursos e saída para realizar os desfiles, contava com a ajuda dos amigos muitas vezes... foram muitos anos de dificuldade e escassez de dinheiro e verba. “O carnaval e o Embaixadores passaram por estes tristes momentos”... Lembra. Porém, destaca com alegria outra era:

“[...]”...Uma época também que destaco como muito importante para o crescimento do carnaval é sobre a gestão dos meus amigos de AssociaçãoCarnavalesca, na gestão que alavancou o carnaval de Porto Alegre, que foi a do Evaristo Mutti, junto com Doutor Ari Chagas, Tulia Silva, Seu Hélio... depois veio o Jorge Sodré, o Ademir Morais, o Urso... estes camaradas melhoraram o carnaval... engrandeceram... antes, antigamente a gente passava muito trabalho, as escolas viviam numa agonia pra ir por o desfile...[...]”.

Em meio ao papo descontraído, foi perguntado de onde vem tanta energia, simpatia e carisma com o publico nos desfiles, ele nos conta que não faz distinção dos amigos, conhecidos, parceiros... que no carnaval todos são importantes, que carnaval é lugar de rico, pobre, branco, negro, todos são importantes.

“[...]... Eu já fiz de tudo nesta vida, trabalhei em armazém, vendi cachorro quente, vendia maçã, amendoim... conheço todo o povo simples, conheço quase todos os carnavalescos, os trabalhadores de barracão, sinto o carinho do povo, todos que me veem, gritam meu nome, me chamam... ‘Giró...Giró... vem cá...’ e me abraçam, as vezes estão barbudos, suados, com tinta e graxa na roupa, mas eu não me importo...Sempre, sempre respeitei os meus parceiros... sempre respeitei meu semelhante... acho que isso aí é a obrigação do ser humano... isso aí é vida pra mim... quando me fazem um agrado, me trazem um abraço, um sorriso... se não me dão eu dou... eu não tenho inimigo... é a melhor coisa pra ti viver e sobreviver... O maior troféu de todos que ganhei até hoje é o da amizade...[...]”.