terça-feira, 25 de agosto de 2015

A porta bandeira capoeirista

Foto: Leonardo Contusi

Por Simone Ribeiro 

Esse final de semana estive no Rio de Janeiro para participar do evento anual do meu grupo ABADA Capoeira, os Jogos Mundiais e a comemoração dos 60 anos do meu mestre Camisa. Entre as atividades da capoeira, consegui dar uma escapada e participar do Seminário Majestades do Samba-RJ/SP.
Porém teve momentos concomitantes quando tive uma imensa vontade de me clonar! Há muitos anos exerço as duas atividades, confesso, não é fácil, pois tenho amor as duas, capoeira e carnaval e não me vejo nesse mundo sem estar praticando uma delas. Poderia escrever páginas sobre esse assunto, mas vou tentar sintetizar.

A capoeira veio primeiro, forte, imperiosa, arrebatadora. Veio através da dança que foi onde conheci meu primeiro professor, há 28 anos atrás. Comecei como aluna e logo estava dando aula. Alguns anos depois veio a onda das aulas em escola de samba aqui em Porto Alegre e assim conheci a quadra da Embaixadores, e cheguei mais perto do carnaval que eu só admirava pela tevê.
Então um maluco de um aluno meu veio com a história que estava sem porta bandeira e que eu podia exercer esse papel. Foi uma loucura. Terminava o treino a gente ficava com a verga do berimbau fazendo às vezes de bandeira e assim ele me convenceu a desfilar na Portelinha, escola do grupo de acesso da zona Norte.
No mesmo ano desfilei numa ala da Imperadores, aliás a primeira escola especial que desfilei no carnaval, vejam só. Claro que quando entrei na quadra tive um choque devido à diferença de onde eu estava ensaiando, pela grandeza do Mar. Quem tiver o desfile de 98 vai me ver na ala dos capoeiristas, com os bastões de maculelê fazendo uma coreografia e como eu era a única mulher a RBS me deu um bom close. Bem a nota na Portelinha foi 6,0 e a culpa recaiu toda sobre nós, mesmo com todos os problemas que nem vou relatar aqui, mas que podem imaginar. Então decidi me aprofundar, o vírus do carnaval me pegou e a partir daí como sempre fui muito de pesquisar, logo descobri a ligação entre as duas artes, pois os primeiros MS eram capoeiristas contratados para defender os pavilhões dos ataques grupos rivais.
Cada vez mais encantada com a dança da Porta bandeira, fui ser segunda na Imperatriz D. Leopoldina e aprender com o mestre sala Zoca. Passei a acompanhar as grandes PB da época e era fã de Rosecler, Isabel e Michele. No ano seguinte, me tornei a 3ª PB da Embaixadores e lembro que os amigos riam de mim, mas assim como na capoeira eu fui conquistando uma graduação após a outra. E assim tem sido a minha vida treinando e dançando, não necessariamente nessa mesma ordem. A capoeira me deu muitas das qualidades que me mantiveram no carnaval, força, garra, determinação, DISCIPLINA, preparo físico, saber “cair e levantar” de cada rasteira e principalmente, que sempre é preciso estudar o jogo, as condições e prepara a luta, nunca subestimando ao adversário.
Encontro de pavilhões no RJ
Com o carnaval ganhei de presente um lugar no Padedê, o qual administro com muitas das competências que aprendi com meu mestre Camisa, pois as heranças afro são todas ligadas em aspectos parecidos, e o respeito à ancestralidade e as raízes de um povo entendo que é o maior deles.
O final de semana mais de 5000 capoeiristas invadiram o Cais do Valongo, a pequena África do RJ, na Gamboa, onde aportaram os primeiros africanos trazidos pela diáspora. Foi maravilhoso, festival de artes com diversas manifestações culturais, um deleite para alma. Campeonato, batizado, troca de graduações. Sentir a história que existiu naquele lugar é algo único e especial. Pude palestrar sobre o tema que envolve educação e capoeira, e foi muito gratificante. E quando o samba me chamou eu fui, e participei do seminário organizado pelo espaço João Paulo Machado, que era na verdade entre RJ e SP, mas que gentilmente e foi aberto participar. Lá encontrei seu Manoel Dionisio, que juntamente com Carlinhos Brilhante e Machine (síndico da passarela) compartilharam com os presentes de suas histórias e vastos conhecimentos. Também ouvimos Hugo Passos (SP), Bonifácio (RJ) ambos coreógrafos, preparadores de casais de MS e PB;além de Cristiane Caldas, primeira PB da Mocidade e tudo no barracão da própria Mocidade e com outras presenças ilustres.Bom demais!
 Assistimos uma oficina de turbantes maravilhosa. No sábado as atividades continuaram com dinâmicas e palestras, desfile de turbantes, apresentação no teatro, tudo voltado para o nosso quesito. E culminou com a roda de bandeiras na São Clemente onde fomos recebidos com as pompas e honras de quem conhece e reconhece o valor e a importância dos casais de MS e PB. Uma finesse ímpar, além da elegância e recepção dos casais da escola. Todos dançamos ao som da bateria dez da escola e eu ainda tive a honra e alegria de poder dançar com um dos maiores MS do RJ, o premiadíssimo s.r. Carlinhos Brilhante. Ver o pavilhão do Mar entre os de SP e do RJ foi muito gratificante.

E vieram algumas pessoas emocionadas perguntando se era mesmo o pavilhão da Imperadores, pois são apaixonados pela escola e estavam muito felizes de ver ali numa escola do grupo especial do Rio de Janeiro. Enfim, exausta no domingo ainda havia as ultimas atividades do evento da capoeira para fechar com chave de ouro. As vezes me perguntam como eu arrumo tempo. Aprendi com mestre Camisa: QUEM QUER DÁ UM JEITO, QUEM NÃO QUER DÁ UMA DESCULPA. Entre o abadá e a saia, mantenho viva a cultura popular e sou muito feliz!