quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tolerância e diálogo religioso


O IV encontro de Axés aconteceu no dia 09 de maio e foi promovido pela ALCUCAB/RS Associação Leopoldense de Candomblé, Umbanda e Cultos Afro-brasileiros e pela Associação Espirita de Umbanda Cacique Haitú –no Templo de Oxum em São Leopoldo, situado na rua Clemente Pinto, numero 530 no Bairro Fião. A festividade foi idealizada pelo Babalorixá Pai Nilton de Oxum, e contou com a presença de grande público e de participantes de outras religiões.

Anderson Ribeiro ciceroneou a abertura dando as boas vidas ao público presente, que aguardava o inicio da cerimonia. “[...] ...abrimos esta noite, este grande evento, esta grande festa, saudando a todos os convidados aqui presentes, pessoas que estão dispostas a um congraçamento... [...] ...buscamos desenvolver e promover a diversidade religiosa, o respeito mutuo, a amizade e o companheirismo... [...]”.

Após a solenidade de abertura, Anderson chamou Pai Dejair Haubert, que é presidente do conselho da Associação Afro Umbandista de São Leopoldo. Dejair por sua vez, fez questão de “quebrar o protocolo” e pediu para entregar a homenagem à Mãe Aurea de Oxum. Logo após cumprimentar a todos, iniciou a fala sobre a cultura africanista. Esclareceu que a cada festa realizada, há o costume de partilhar o alimento, a comida, considerada sagrada.



Dejair lembrou dos episódios ocorridos do projeto de revisão da Lei Estadual [1], que visava proibir a sacralização dos animais dentro dos cultos de matriz africana, falou que este tipo de ação em relação à deputada é pura falta de esclarecimento por parte da população que desconhece os preceitos, e seguiu dizendo que:

“[...] quero aqui dizer que nós realmente sacralizamos estes animais... mas pra nós isso é tão sagrado, que faz parte do rito, e este animal passa a fazer parte da nossa alimentação... [...] partilhar o sagrado, partilhar o alimento entre todos os que vieram para a festa de aniversário da Mãe Oxum... [...] não poderíamos fazer a festa sem partilhar o sagrado e partilhar o alimento, e não somente para os de matriz africana, mas para com todos os nossos amigos, católicos, evangélicos, luteranos, espíritas, budistas... ou qualquer pessoa que chegar dentro desta casa pode partilhar o nosso alimento... [...] todas as pessoas são bem vindas a comer aquilo que é sagrado para nós... não são só os ‘feitos no santo’, que tem o direito de comer o alimento sacralizado, a comida sagrada é do Orixá, por isso mesmo ela é de toda a nação, é de todo o povo... Vale acrescentar que este alimento, se houver sobras da festa ele será distribuído gratuitamente para a comunidade... nada é desperdiçado...[...]” Pai Dejair D’Ogum no IV Encontro de Axés no Templo de Oxum.

A seguir, foram apresentados diversos alimentos feitos com os animais. Iguarias que são servidas em todas as festas e rituais africanistas. Foi uma aula didática acerca da comida dos santos Orixás.

O primeiro ‘prato’ apresentado foi o cabrito assado. Dejair apresentou, esclarecendo que independente de qual Orixá for ofertado, ele é sacralizado e após os rituais é habitual servi-lo assado, pedindo sempre a força, a energia e a vitalidade daquele Orixá, ao qual foi oferecido o caprino.


[...] ...sempre que evocamos a presença e a energia de cada Orixá no momento de seu culto, nós acreditamos que comer a carne deste animal sacralizado em honra a este Orixá, esta divindade está nos repondo esta energia, nos fortificando, para que possamos ter direcionamento...[...]

A outra iguaria foi apresentada a todos, e se chama sarrabulho, alimento feito das vísceras (ou inhelas) de todos os animais sacralizados aos Orixás, esclarecendo que não é somente da carne, mas como os ‘miúdos’ (como é conhecido popularmente), que é feito este alimento. Pai Dejair lembrou que se faz isso, ao ingerir o alimento, se pede a força, a energia e a proteção dos Orixás.

O próximo prato apresentado foi o porco assado, animal que é oferecido às divindades Odé e Otim, Orixás da caça, da força, da fartura e da vitalidade. Dejair ressalta a crença que o povo tem, de que estes Orixás trazem a fartura para a mesa, que não permite faltar o alimento, não deixam faltar a vitalidade para enfrentar o dia-a-dia e são os Orixás que cuidam das crianças.

Logo após foi apresentada a ‘canja’, que para os que acreditam, traz o poder da cura, da renovação e da alimentação. Serve também de alimento para as crianças nas mesas de Ibejis.
A seguir, o ‘prato’ apresentado foi o amalá, que é uma iguaria servida a Xangô, rei da Nação de Cabinda.Alimento que é feito do carneiro oferecido a este Orixá, dono da justiça e estabilidade, com isso é crença que ao ingerir este alimento, o Orixá nos dá equilíbrio e sabedoria.


A próxima iguaria da culinária africanista foi o acarajé, comida ofertada a Inhançã, dona dos lares, dos tetos, das panelas e do amor... Orixá que cuida das nossas relações sociais. Este alimento reforça a energia e a vitalidade do corpo.

A farofa, alimento feito de todas as aves sacralizadas aos Orixás. O povo de Axé acredita que neste alimento está toda a energia dos Orixás, que será transmitida para a pessoa que ingeriu e comeu desta comida sagrada.

O peixe assado também foi apresentado, iguaria que simboliza a saúde, a fortuna (dinheiro), a fartura e a prosperidade. Animal sacralizado a todas as divindades.

Pai Dejair lembrou que aqueles pratos apresentados foram e são uma pequena mostra das iguarias, que são muitas, e que representam um pouco dos alimentos oriundos dos animais oferecidos em honra aos Orixás. 

“[...]... de uma maneira especial, aqui está um pouco da nossa culinária que é utilizada com os animais sacralizados aos Orixás... aqui está o que nós acreditamos que seja o sagrado, o nosso alimento, pedindo a bênção dos Orixás [...] ...para nós, comer destas carnes é nos alimentar e partilhar do que é sagrado...[...]”

A seguir foram feitas as homenagens aos agraciados com o prêmio de destaque na atuação em suas comunidades religiosas: Mãe Áurea de Oxum; Baba Diba de Yemanjá; Mãe Viviane de Inhançã; Pai Neri de Lodê; Mãe Dalva de Xapanã e Mãe Sandra de Oyá foram os agraciados.

A seguir, foi aberta a palavra para que os representantes das demais religiões se manifestassem. O primeiro a falar foi Jose Carlos Bandeira da Associação Espírita Amor a Verdade:

“[...]... meu Axé... é uma alegria pra mim estar aqui, porque a gente se conhece, está junto neste grupo (GEDIREC-UNISINOS)... Pai Nilton sabe do meu carinho e o apreço que eu tenho de estar aqui... até para quem não sabe, em reverencia a estas duas pessoas, que pra mim são muito caras, (se referindo e apontando para as fotografias dos pais de Pai Nilton, dona Matilde e o senhor Jardelino Rodrigues), porque trabalhavam na casa a qual eu trabalho hoje, a Sociedade Espírita Amor a Verdade... e de lá saíram para criar esta casa... por isso é um momento muito especial para mim, a cada ano que eu posso voltar aqui...[...]

Bandeira acrescentou que em sua doutrina, consta no Livro dos Espíritos, uma indagação de Alan Kardec, que em determinado momento pergunta aos veneráveis: “[...]...qual seria a melhor religião para o homem?... [...]” ...heis que apenas os benfeitores espirituais respondem: “[...]...a melhor religião é aquela que mais homens de bem fizer, e menos hipócritas...[...]”.Bandeira acrescentou em seu momento de sapiência, dizendo que é para todos os que professam uma religião, que o faça com o coração... que os fiéis, seja do espiritismo, católicos, evangélicos, batuqueiros... enfim, tem que ter fé e fazê-la com alegria e entusiasmo... disse ele: “[...]... se eu não vou com prazer, se eu não for com alegria, então não faço!... pois se fizer algo contrariado, isso se chama hipocrisia...[...]

Logo após, foi a vez Professor Ms Inácio José Spohr, padre e mestre da Unisinos, coordenador do Grupo Inter-religioso de diálogo entre as religiões, que saudou a todos e ao Pai Nilton, dizendo que:

“[...] a luta pela liberdade religiosa é nossa também, uma luta católica e também da universidade... [...] ...pois uma universidade obrigatoriamente tem de ter um olhar necessariamente inter-religioso, pois seus funcionários, seus professores, seus alunos são de diferentes orientações religiosas e merecem respeito de todos... [...] o grupo inter-religioso de Diálogo, do qual Pai Nilton faz parte, Pai Dejair, e tantos outros que estão aqui presentes, é composto por nove religiões diferentes, e todas estas representações estão preocupadas com a possibilidade de haver uma intervenção no sentido de proibir uma das religiões do grupo, de ficar destituída ou impossibilidade de realizar o seu credo e de sacralizar os seus alimentos, um gesto duro, difícil de ser aceito... deveremos ter a liberdade religiosa e o respeito a todas as religiões... para isso é preciso conhecer as outras religiões, reconhecer as diferentes religiões, e acima de tudo respeitá-las, preservar as identidades, praticando a fé e a justiça...[...]"


A seguir foi a vez da líder budista Monja Kokaidesejar a todos uma boa festa, disse estar muito contente de estar ali, e acrescentou dizendo: “[...] quero parabenizar a casa e desejar que este cerimonial seja pleno de energia e de significados para todos, e que colabore com a caminhada espiritual de cada um...[...]. Ela acrescentou que o grupo inter-religioso de São Leopoldo é muito especial, pois consegue dialogar, em um momento de fragilidades entre as irmandades religiosas.

Logo após foi a vez do secretário da Cultura de São Leopoldo, Francisco Luiz Weinmann, salientou que o papel da prefeitura e do secretário é o de apoiar as iniciativas como estas: “[...] ...não cabe ao poder publico atrapalhar e interferir em uma forma de cultura que já existe... na sua totalidade, na sua história e nos seus motivos... não estamos aqui para questionar e sim para incentivar e apoiar e que as cerimonias sejam mantidas assim como elas são em suas origens...[...]”.

Mãe Aurea de Oxum iniciou parabenizando Pai Nilton pela noite de festividade, da linda Festa de Obrigação que é o maior ato da Liturgia Africanista. Ela elencou a importância do exemplo organizado pelo Grupo de tolerância religiosa, grande aprendizado didático e cultural da ritualística afro. Diante dos acontecimentos e dos movimentos políticos que visam a proibição dos rituais africanistas, ela disse que:

“[...]... todos os dias, quando bato cabeça para a Mãe Oxum eu peço para que haja mais consciência e discernimento dentro e fora da religião, principalmente entre os políticos... consciência e discernimento para saber que a liberdade do vizinho termina onde começa a minha...que todas as religiões e manifestações são importantes e ricas e fazem disso a nossa cultura e a riqueza de nosso país... é a diversidade que nos faz tão bons, tão grandes e tão diferentes... e nós precisamos respeitar isso, e este exemplo tem que começar dentro de casa... [...] é com o respeito mutuo que tudo vai se organizar... e isso depende dos políticos, para manter o respeito e a liberdade... [...] e também devemos nós de religião e sacerdotes, o exemplo a ser dado para um amanhã melhor, com mais união, para que nossa religião não seja vilipendiada e marginalizada. Conclamo aos sacerdotes, aos Babalorixás e Yalorixás, trabalhar também o exemplo e a firmeza para com aqueles que colocamos dentro da nossa casa, para que haja cada vez mais a responsabilidade daqueles que carregam um Axé, para que não diminuam ou manchem a imagem da nossa religião... pois é tão fácil falar mal, assim como é fácil esquecer do que foi bom... [...] por outro lado, as mesmas pessoas que estão levando adiante este projeto preconceituoso, já frequentaram muitas casas de religião, e hoje por conveniência própria, ou por trampolim politico atacam os africanistas... mas em parte a culpa é nossa! Pois em quantas eleições apoiamos estes que hoje nos atacam? Quantos nós elegemos ou foram eleitos da nossa religião? A hora é agora! É a nossa responsabilidade neste momento, e é este o exemplo que teremos que levar adiante, e também devemos colocar dentro da politica pessoas nossas, para que possam ser a nossa voz... pessoas que se identifiquem com a matriz africana... [...] ... vamos aproveitar este momento, pois, não será tudo isso que está acontecendo um chamado ou uma mensagem dos nossos Orixás? Para que o nosso povo acorde e se sacode para ir pra rua? Nós teremos que ter representatividade...[...]”.

A seguir, foi a vez do anfitrião e Babalorixá Pai Nilton ter a palavra para com todos, agradeceu a todos os presentes, amigos, sacerdotes, políticos, filhos e netos de santo, o compartilhamento deste importante momento. Ele mencionou a todos de sua família religiosa e disse:

“[...]...este momento é muito importante para todos nós, pois hoje vamos tomar contato com o nosso sagrado, e ter a presença de todas estas pessoas queridas, destes olhares atentos, destes sorrisos alegres, dos amigos junto a tudo isto, o que é muito bom... [...] ...falando da diversidade religiosa, há algum tempo eu tenho a oportunidade e o privilégio de fazer parte do GEDIREC... onde se mantém o diálogo e a idéia de exteriorizar estes pensamentos e práticas para além das nossas casas, para a comunidade, para as escolas, para uma educação religiosa nas salas de aula... [...] por experiência, é muito gratificante, pois aprendemos muito com o diferente, cada um de nós no seu segmento, cada um com seu jeito de mostrar o sagrado, cada um com sua realidade...[...]... numa forma de nos tornar pessoas melhores, pois os caminhos que levam a Deus são muitos, cabe a gente se desprender da ignorância e respeitar o próximo e o diferente...[...]”

Nilton de Oxum agradeceu a Diretoria da ALCUCAB, na organização das homenagens e nas diversas atividades de recepção das pessoas presentes. Agradeceu a presença de todos.Logo após, houve a apresentação do balé folclórico de Santa Maria – RS, a CIA de Dança Afro Euwá-Dandaras. Encerrada a apresentação, Pai Nilton complementou:

“[...] Quero agradecer aos meus filhos, aos meus netos, por esta obrigação, pelo carinho, pela dedicação, pelas horas, pelos sentimentos, pelo sacrifício de cada um, e por tudo o que fizeram, que a Mãe Oxum e todo o seu Orumalé e que cada um dos seus Orixás possa estar os recompensando e abençoando a todos, com saúde e prosperidade... penso que são estes momentosem que vale a pena, pois além de estar comungando com nossos Orixás, é um momento de rever tantos amigos e é por isso que agradeço a todos pela presença e por este momento. Muito obrigado! [...]”

Fontes:
http://www.setor1rs.com.br/2015/03/ouvindo-historias-de-preconceito-e.html