terça-feira, 19 de maio de 2015

IRE LEKE ATÌ NAGÒ ATÌ UÁ BANTU E REFLEXÃO‏


Há quase duas semanas atrás presenciamos a vitória não só do povo do "santu", mas a vitória do respeito a alteridade, a diversidade da cultura de um pensamento que não o cristão, europeu, e etnocêntrico independente do viés de nossa vertente religiosa, crença e fé, pois fé é relativo como já diz o próprio conceito: podemos crer em várias coisas incluindo em nós mesmos.  A tentativa errônea e infeliz da deputada e primeira dama Regina Fortunatti de dizer que nossas práticas consagradas, milenares, quase mais antigas que a história da terra poderiam ser inconstitucionais. Eu acredito que ela, a ilustre deputada, não tenha bem consciência do que é um estado laico, também para nossa surpresa desconheça a carta magna de nosso país (constituição).  


Em contra partida, também serviu e deve servir esse momento para nossa reflexão enquanto sacerdotes e adeptos das religiões tradicionais e de matriz africana no Rio Grande do Sul, podemos pensar em sustentabilidade, preservação dos locais, exagero em algumas práticas, até que ponto está o sagrado, está a devoção, está o fanatismo, está a falta de conhecimento, está a busca do questionamento? Religião não é ciência, mas caminha lado a lado com ela tudo o quê se faz tem sentido, tem significado, tem dogmática, tem base empírica e base teórica, devemos sim aproveitar esse momento para questionar nossas práticas e reafirmar nossa fé, reafirmar nosso propósito com o bem, com a natureza.

Irunmolès(n) (o mesmo que orisàs) Minkisi, Voduns (correspondente bantu e fon respectivamente aos orisàs) possuem forças, e elementos da natureza ( são dotados  de ejé, branco, vermelho, verde e preto), portanto são parte indissociável das forças naturais. Vitória nossa, mas não desistamos de pensar, de trazer para dentro de nossos asès, nzo, abassà, terreiros, ijò, egbè: a discussão, a articulação, a defesa, a preservação, o sentido, o significado, a dogmática, os preceitos, a teologia africana, a liturgia, o bom caráter, a boa índole, para sempre sairmos vitoriosos naquilo que olodunmarè e ifá nos deram por direito, a fé!


IRE GBOBGO
VOCABULÁRIO DO TEXTO:

N= NAGÔ/YORUBÁ
B= BANTU
F=FON/JEJES

Algumas palavras estão com a transcrição escrita como se pronuncia, portanto os acentos agudos circunflexos que por ventura aparecem é para dar a sonoridade da língua falada aqui no Brasil e na Diáspora.

Observação: para muitos autores o grupo lingüístico também define a origem/linhagem/etnia dos povos.

ABASSA = CASA NA LÍNGUA FON, YORUBÁS /JEJES DO ABOMEY( DAOMÉ) (F)
ATÌ =E /DE/DA/DO( N) 
BANTU(BÂNTU)= GRUPO LINGUÍSTICO BANTU ANGOLA, KONGO, BENGUELA, MOÇAMBIQUE, ZAIRE, KABINDAS E ÁFRICA 
EGBÈ = GRUPO( N)
EJÈ= SANGUE(N)
GBOGBO=TODO(A,S)(N)


IFÁ= Sistema adivinhatório yourubá, mas que também é o nome que orunmilá é chamado, orunmilá é o segundo ao lado de OLODUNMARÈ=" IBIKIJI OLODUNMARÈ" aquele que conhece todos os caminhos da humanidade, o senhor dos odus, testemunha da criação.

IJÓ= LOCAL/CASA (N)
ILÊ= TERRA(N)
IRÊ =POSITIVO ( N)
LÊKE =VITÓRIA (N)
NAGÓ =NAGÔ, GRUPO LINGUÍSTICO YORUBÁ ( OYÓ, KETU, EFON(IJESÀ,ILESÀ) NIGÉRIA, IBADAN,ILEJIBÔ 
NZÓ= CASA NO IDIOMA KIMBUNDO/KIKONGO (B)

OLODUNMARÈ=*senhor de, parte principal, líder absoluto, chefe autoridade, aquele que permanece, aquele que sempre é, aquele que tem autoridade absoluta sobre tudo que há no céu e na terra e é incomparável, aquele que é absolutamente perfeito, o supremo em qualidades"....(n)

SANTU= *santo, estrangerismo encontrado no ensaio de dicionário kimbundo/kikongo para designar divindades bantu-kongolesas de cordeiro da mata.

UÁ=KUÁ,KIÁ, RIÁ= DE, DO, DA (B)

Fontes: * Esú e a ordem do universo,Sikiru Salami( BABA KING) e Ronilda Yakemi Ribeiro, editora Oduduwa, São Paulo, 20011. *Ensaio do Dicionário Kimbundo/Kikongo Cordeiro da Mata.

Texto por Alexandre Barbosa
Awo Ifagbaye Ifadare Ifasunle Agboola
Sacerdote Do Culto A Orunmilà/Ifà E Religião Tradicional Yourubà
Consultas ao Opele Ifà e Merindilogun