quinta-feira, 9 de abril de 2015

Eu sou o samba!

Tenho pensado e estudado muito, cada vez mais sobre o significado de ser passista masculino. Por algum motivo, as pessoas ficam surpresas quando descobrem que eu sou passista de escola de samba. Principalmente aquelas que não tem conhecimento do carnaval. Para essas pessoas, por mais que elas não digam diretamente, ser passista é muito pouco ou é inapropriado para quem “tem consciência”.

            Ser passista no pensamento dessas pessoas é simplesmente dançar, sambar e/ou pular. Aliás, muitas pessoas me confundem com “mestre sala”. Errado. Para essas pessoas, as passistas femininas, devem corresponder a um estereótipo sexualizado, incentivando o pensamento sexual, se exibindo, se vendendo. E isso é um grande e grave equívoco. É um grande equívoco porque distorce a verdadeira representação de nós passistas, para o público, todavia, difamando-se essa função. Ser passista é o ponto alto na auto estima de muitas meninas e mulheres, muitas vezes o único. É o momento em que as meninas mais novas olham para as mais experientes e se espelham para construir sua feminilidade, dentro e as vezes até fora do carnaval. As passistas femininas surgem dentro da cultura das escolas de samba como o reconhecimento das mulheres que melhor representam a dança do samba, com a função de conquistar a simpatia e a admiração do público.


            Mantendo a postura de respeito que eu procuro manter (apesar de saber que posso não ser compreendido), eu espero que vocês entendam a minha colocação. Mas há tempos que venho procurando novos passistas MASCULINOS nas Escolas de Samba. E está raro. Independente de sua opção sexual (isso não é um discussão sobre sexualidade e sim comportamental), ser passista masculino é mostrar a figura do passista malandro, boêmio, bamba e galanteador, uma ideia por muitos considerada ultrapassada, mas que, ao meu ver, faz todo sentido. Não é nada contra a opção sexual de ninguém, mas o passista masculino deve ter a responsabilidade representativa deste personagem. Quanto menos nos qualificarmos e estivermos dentro da cultura do carnaval com a nossa arte, menos seremos valorizados. Tanto moralmente, quanto financeiramente.

Há tempos escutamos a seguinte frase: “Não existem passistas masculinos, todos estão afeminados”. Não precisamos ter uma “vivência de malandragem”, na nossa rotina e daqueles outros que interpretam essa clássica representação do passista masculino. A figura do passista deve ser construída, pois passista masculino deve no mínimo conhecer as regras básicas da dança do samba para homens. Sacudir a cintura, bater cabelo, rebolar, dentre outros trejeitos que caracterizam a figura feminina no samba, não fazem parte da interpretação do Passista Masculino. Assim como observamos em outras danças que o homem corteja a dama, na dança do samba isso não é diferente. O passista masculino está para cortejar a sua passista, sendo cavalheiro, galanteador e não tendo a postura de quem vai chamar a “colega” para “ferver” junto, ou “fazer inveja nas inimigas”.


            Sugiro à aqueles que se propõe a serem um passista, buscarem informações sobre o gênero e da sua cultura. Da mesma forma aos diretores de destaques/carnaval a estarem preparados para exigir de seus destaques, uma postura compatível com o personagem representado, e principalmente servir de espelho para o todo o carnaval, em nome da valorização da nossa festa popular e tão rica culturalmente.

            Sabemos que dentro de uma escola de samba há espaço para todos, afinal, carnaval é a festa do povo, porém é preciso conciliar espaço e prioridade, onde cada um deve ocupar o seu devido lugar. Felizmente aqui no Carnaval de Porto Alegre, ainda temos, seletivamente, passistas masculinos, malandros e riscadores, que buscam se desenvolver cada vez mais nessa ideia, servindo de espelho para todos aqueles que buscam e almejam ser Passista Masculino de fato.

            Esta não é uma forma de diminuir o trabalho de ninguém, é apenas uma insistente tentativa de conscientização da importância da afirmação de uma tradição que está se perdendo e que precisa ser mantida. É um bandeira levantada. Que não enterrem, por favor, a figura do malandro!

            Com esse pensamento, mostrando claramente a figura e a função do passista feminino e masculino no carnaval, que possamos ser cada vez mais samba, que seja do nosso sangue, do nosso DNA, pois vem aí, a partir de semana que vem, no Setor 1, a série “EU SOU O SAMBA”, mostrando a história, a luta e a rotina dos nossos casais de passistas do Carnaval de Porto Alegre. Até a próxima...