quinta-feira, 9 de abril de 2015

Da série Guardiões - A conduta do Casal


Texto da ‘Série Guardiões’. Sobre o bailado e a dança nobre do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira no carnaval de Porto Alegre.

A conduta do casal é o tema desta nossa reportagem. Este texto traz algumas dicas da conduta, a qual o casal que apresenta a bandeira das Escolas de Samba deve ter diante do público que os assiste. Por conseguinte, a conduta do público que assiste e prestigia a dança magnífica e o ritual do casal.

Sabemos que cabe ao casal de mestre sala e a porta bandeira, que juntos apresentam e defendem o sagrado pavilhão da escola, manifestar-se bailando num leve cortejar, mas nunca, porém sambar, assim como já se observou, seus movimentos são: “[...] ...como o voleio de um beija-flor em torno da rosa. Ele se aproxima, toca e sai. Volta a se aproximar, beija e sai. Nunca as ações serão idênticas. E a rosa, ao contrário do que se pensa, ao sabor do vento das asas do pássaro, não permanece passiva. Ela dança... [...]”, disse assim a porta-bandeira Vilma do Nascimento, em entrevista a José Carlos Rego.

Logo a conduta de ambos é a pura expressão do galanteio, marcada de encantamento, de graça, leveza, mesuras e flertes – porém sem gestos vulgares. A elegância e a simpatia do casal é uma das premissas da conduta altiva e nobre do casal.

Nos esclarece, Eliane dos Santos Souza, em seu trabalho sobre a Semiologia da Dança do Mestre-sala e da Porta-bandeira, nos indicando alguns dos deveres do casal em relação à bandeira, a partir de relato do mestre-sala Carlinhos Brilhante: “[...]... o casal de mestre-sala e porta-bandeira é o primeiro guardião, são eles que carregam o pavilhão da agremiação... [...] ...ao chegar visitas ilustres na sua escola, o casal de mestre sala e porta bandeira tem que estar presente para recebê-los com seu pavilhão... [...] ...nunca deixar seu pavilhão com qualquer pessoa, ou procurar um guardião que poderá ser o próprio mestre sala ou um diretor de harmonia.


Ao chegar em outra agremiação estar sempre de cabeça erguida, postura elegante, aguardando ser recebido e portando sua bandeira. ...quando eu comecei era assim: uma boa porta bandeira tinha uma elegância espetacular, um porte; a porta bandeira rodava pros dois lados, tinha um sorriso, só vivia sorrindo, a porta bandeira tinha que estar com aquela alegria porque ela é a rainha dentro da sua escola de samba, então ela está carregando o pavilhão da sua escola, então ela tem que se sentir uma rainha. Era o que eu me sentia. [...] ...agora é comigo, eu sou uma rainha”. Vilma Nascimento in Dossiê das Matrizes do Samba Carioca.

            Para alinhar as informações e a conduta de todos os envolvidos no ritual de saudação a bandeira, seja de quem o apresenta – o casal, ou seja de quem assiste o ritual – o público, a apresentação da bandeira deve ser um momento sublime e ritualístico. Ato que deve ser realizado com os devidos cuidados como nos esclarece Tarsila Rodrigues, nos dizendo que:

“[...] se trata da maior honraria que a Escola de samba pode oferecer a uma pessoa ou segmento, o receptor da mesma também deve se portar adequadamente para este significativo ritual. Então, pessoas por mais importantes que sejam precisam estar adequadamente vestidas para beijar a Bandeira da Escola. Não é respeitoso que indivíduos vestindo camisetas sem mangas, bonés, chapéus, bermudas, chinelos de dedo ou estando embriagadas e com copo de bebida na mão recebam o pavilhão da escola. Por isso, compete ao diretor de harmonia auxiliar na indicação a quem a Bandeira será apresentada...[...]”

Outra questão muito importante é a saudação à bandeira, que acontece sempre direcionada às pessoas importantes da escola, como nos orienta Tarsila:


[...] A reverência à Bandeira, traduzida basicamente no gesto de beijar o pavilhão, pode ser considerada a honra máxima que uma agremiação concede a alguém, a qual deve ser apresentada apenas uma vez no evento. Se entre as pessoas que vão reverenciar a Bandeira esteja o presidente da Escola, a ele primeiramente deverá ser apresentada a Bandeira, pois o presidente é a autoridade máxima dentro de uma Escola de samba. Feita a reverência ao presidente, a Bandeira é apresentada a convidados ilustres e, em seguida, aos segmentos da Escola geralmente, à figura representante decada segmento, como, por exemplo, o mestre de bateria, a presidente da ala das baianas, o presidente da Velha-Guarda, ao puxador de samba-enredo oficial, etc. É importante ressaltar que, a partir do momento que o diretor responsável recebe o pavilhão, ele está reverenciando em nome de todo o seu segmento, isto é, a honraria está sendo recebida por todos os integrantes daquele segmento.[...]

Como de costume, o casal deve apresentar a bandeira à todos os dirigentes e a todos os demais guardiões de outros pavilhões das entidades co-irmãs, como as portas estandartes, portas bandeiras e mestre salas, claro que se estes estejam adequadamente vestidos e enquadrados e dentro dos padrões aqui já citados...

Tarsila ainda acrescenta que seria bom e bonito, se todos os componentes da escola e seus simpatizantes pudessem ter a honra de reverenciar a bandeira da escola, mas isso é quase que impossível de acontecer, e porque se isso acontecer, o casal não irá fazer outra coisa além de apenas apresentar o pavilhão a todos os presentes, e também se isso acontecer, e o casal optar por apresentar o pavilhão á todos, o ritual acaba por perder o seu valor e todo o seu simbolismo.

A seguir, vamos esboçar algumas condutas “chave” que devem ser consideradas pelo casal, pelas pessoas que os assiste e, principalmente à direção das entidades que se preocupam com a manutenção desta tradição do carnaval.

Condutas gerais do Mestre Sala:
1)      O mestre Sala nunca deve dançar de bermuda, camisetas decotadas e sem camisa;
2)      Não deve ser grosseiro ou interpelar a sua Porta Bandeira durante a dança;
3)      Deve ter uma presença elegante e altiva com todos;
4)      Primar para a simpatia de sua agremiação.

Condutas gerais da Porta Bandeira
·         Estimar pelo visual; estar ricamente vestida (lembrar dos conselhos de Vilma Nascimento – “a Porta Bandeira deve parecer uma rainha...”)
·         Estar sempre sorridente e demonstrar simpatia e altivez;

Condutas gerias do casal:
·         Juntos, devem zelar por sua bandeira;
·         Transparecer a amizade de ambos, e dançar um para o outro em honra ao pavilhão;
·         O casal, mais que profissionais, devem demonstrar entrosamento e entusiasmo;

Conduta com a bandeira:
·         A bandeira deve estar sempre limpa;
·         Não colar brilhos, pedras, fitas coloridas e outros bordados que não seja o pano e os símbolos oficiais da bandeira; por ser uma bandeira, não requer adornos;
·         Quando hasteada e/ou em exposição, sempre de pé, jamais deitada ou “encostada”, comprometendo o seu sagrado pano.

Conduta de terceiros com o casal e o pavilhão:
·         As pessoas da escola devem zelar pelo casal e o seu pavilhão;
·         Membros da Harmonia Geral, Direção e Coordenação devem resguardar o casal, seu espaço técnico e suas honrarias;
·         A agremiação deve acima de tudo, respeitar o casal que porta o símbolo máximo e que representa a todos. Faltas, grosserias e desrespeito direcionados a esta tríade(mestre sala, porta bandeira e bandeira), é sinal de falta de atenção da entidade ao “seu todo”.


Fontes:
REGO, José Carlos. Dança do samba: exercício do prazer. Aldeia, 1994.
RODRIGUES, Tarcila Mariana. A Dança do Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Tradição e Influências. Biblioteca Latino-Americana de Cultura e Comunicação, v. 1, n. 1, 2012.
SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
SOUZA, Eliane Santos de. Uma semiologia do samba: o bailado do mestre-sala e da porta-bandeira. Mestrado em Teoria da Arte. Niterói: UFF, 2003.
SOUZA, Eliane Santos de. Texto disponível em http://www.iphan.gov.br/baixaFcdAnexo.do?id=3962

THEODORO, Helena. Dossiê das matrizes do samba do Rio de Janeiro. R: IPHAN, 2006.