domingo, 19 de abril de 2015

19 de Abril, dia do Índio


O carnaval e as Tribos Carnavalescas.

Neste dezenove (19) de abril, dia em que se comemora o dia do índio, o Setor1 vem homenagear os índios do Brasil e também os índios do carnaval...

...Mas, por que será que o dia 19 de abril é o Dia do Índio?

Em 1940, houve o 1º Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México, que reuniu lideranças indígenas das Américas e aprovou algumas recomendaçõesque propunham:

1º. O estabelecimento do Dia do Índio pelos governos dos países americanos, que seria dedicado ao estudo do problema do índio atual pelas diversas instituições de ensino;

 2º. Que seria adotado o dia 19 de abril para comemorar o Dia do Índio, data em que os delegados indígenas se reuniram pela primeira vez em assembleia no Congresso Indigenista. 1º Congresso Indigenista Interamericano.

O governo brasileiro instituiu assim em 1943, por recomendação do referido congresso, decretando o dia 19 de abril, em comemoração ao índio brasileiro.

Aqui no Estado, uma nova forma de brincar o carnavalfoi idealizada pelos porto-alegrenses. Eles “inventaram” um novo formato, para sair em desfiles pelas ruas de Porto Alegre. Iniciaram assim uma novidade que deu as bases para uma importante manifestação: As tribos carnavalescas. 

 “[...] Dois nomes ligados à história do Carnaval de Porto Alegre e já falecidos, Hemetério Barros e Rubens Silva, figuram entre os fundadores da tribo Os Caetés, em 19 de abril (Dia do Índio) de 1945. Foi a pioneira em uma tradição e peculiaridade do Carnaval porto-alegrense. [...] Naquela época, 22 rapazes – entre os quais Hélio Dias, ainda atuante na festa popular – nos dias de desfile, circulavam pelos coretos da cidade, cantando e fazendo coreografias.Renato Dornelles

As Tribos Carnavalescas são, sem dúvida alguma, uma das características mais peculiares e únicas do carnaval de Porto Alegre. Esta manifestação carnavalesca só existe na capital dos gaúchos. As ‘tribos’ já tiveram grande destaque nos carnavais antigos. Foram tantas em número e expressão quanto as escolas de samba.


Neste tempo e mais adiante surgiu uma profusão de tribos, tempo em que existiram Os Caetés, OsArachaneses, Os Aymorés, Os Bororós, Os Charruas, Os Navajos, Os Potiguares, Os Tapajós, Os Tapuias, Os Tupinambas, Os Xavantes… As Iracemas, Os Rojabás, Os Guaranis, Os Tamoios...entre outras, no tempo em que era “moda” e também fascínio, desfilar ao som dos hinos (música peculiar) das tribos.

Alguns estudiosos do nosso carnaval escreveram matérias e artigos sobre o surgimento, das peculiaridades de música e encenações e das curiosidades de seus desfiles e rituais, além da hegemonia em que chegaram as tribos carnavalescas.

“[...] Se no país, os índios já foram os donos da terra, no Carnaval porto-alegrense, estiveram entre as principais atrações. Entre 1945 e meados da década de 70, existiram, pelo menos, 17 tribos carnavalescas. [...] Peculiaridade do Carnaval da Capital, a tradição das tribos começou em 1945, com a fundação de Os Caetés. Depois dela, vieram outras tantas, o suficiente para que chegassem a ter uma noite exclusiva para seus desfiles.[...]” 15/01/2011, Renato Dornelles, Especial Jornal Diário Gaúcho.

Hoje, resistem bravamente duas tribos, que diante de muitas dificuldades, lutam bravamente para manter as suas tradições, num tempo de tecnologias, onde a “moderna”comunidade refuta as culturas originais e indigenistas. Estas duas tribos agonizam com dificuldades financeiras e também pelo abandono popular.


A crise das tribos carnavalescas veio com a crescente influência do carnaval espetáculorealizado no Rio de Janeiro e suasconsequências de agigantamento das fantasias e alegorias e da predileção e priorização dos carnavalescos pelas Escolas de Samba em detrimento das tribos. Este processo acelerou o esvaziamento das tribos, que por conseguinteforam gradativamente desaparecendo,restando hoje apenas duas: A Sociedade Recreativa Beneficente, Cultural Tribo Carnavalesca Os Comanches e a  Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Tribo Guaianazes.

         O Mestre em Letras Jackson Raymundo, um estudioso no assunto nos esclarece que as tribos carnavalescas entraram em decadência devido a crescente hegemonização pelo país do modelo carioca de carnaval, com os desfiles de escolas de samba.

“[...] A isso se relacionam a maior penetração da TV nos lares, sempre destacando o carnaval a partir do Rio de Janeiro, e a difusão das canções das escolas em rádios e na venda de discos. [...] O caráter "nacionalista" do carnaval foi decisivo para a fundação das tribos em tempos de Estado Novo e de guerra entre países, nos anos 40. Décadas depois, houve um enfraquecimento desse elemento no carnaval. Mesmo criadas sob o nacionalismo, contudo, as tribos não se prenderam aos temas indígenas nacionais, misturando culturas de diferentes lugares e recorrendo a narrativas do cinema, dos quadrinhos etc. [...] Assim como no passado o "bonito" no carnaval era formar escola de samba, hoje são os blocos que estão em ascensão. As tribos, então, seguem como elemento de resistência sustentado por algumas (poucas) famílias. Mas constituem, é bom lembrar, um gênero artístico peculiar, apresentando uma canção autêntica e sem igual (o hino) e uma estética própria e distinta. [...]”


Acredito que deva haver um resgate aos áureos tempos das Tribos Carnavalescas, onde a sua comunidade era expressiva e volumosa. A história das Tribos é a história do carnaval de Porto Alegre, e assim como tal, deve ser respeitada e permanecer viva, em memória e em respeito aos idealizadores e em homenagem aos mantenedores desta importante expressão cultural.


Fontes:
FERREIRA, Athos Damasceno. O Carnaval pôrto-alegrense no século XIX.Livraria do Globo, 1970.
RAYMUNDO, Jackson. Samba-enredo, a canção do desfile de escolas de samba: um gênero épico brasileiro. 2011. http://www.seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/viewFile/43359/27867
RAYMUNDO, Jackson et al. Peculiares e resistentes: relatos orais e canção das Tribos Carnavalescas de Porto Alegre. Nau Literária, v. 9, n. 2.
MAIA, Sandra. Carnaval 2000. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 2000.
Decreto-Lei nº 5.540, de 2 de Junho de 1943.

Outras matérias:
Tribos já mandaram nos desfiles da Capital, por Renato Dornelles:
Tribos ultrapassam 60 anos de tradição no Carnaval: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/cs/default.php?reg=70671&p_secao=3&di=2007-01-26
As tribos criaram uma hoje reduzida, embora muito original, feição própria para o Carnaval local: