sábado, 21 de março de 2015

Simplesmente Guto: Vida e pensamentos do Mestre da terrinha!


Agogôs, repeniques, tamborins, surdos, caixas, merismas e bossas... Assim começa o nosso enredo. Quem aqui nunca se arrepiou quando a bateria da sua escola do coração adentra a passarela do samba, e os foliões em polvorosa anunciam a passagem daquela que para si é a majestosa desta grande festa popular. Frente a esse “mar de sonhos” vem um guia, que com sua postura rígida, porém simples e alegre, comanda a festa e ganha a todos com um simples soar de apito.

Hoje nossa viagem do samba nos transporta até a comunidade da tricolor da Zona Sul, onde os tinguerreiros e seu cisne imponente são lembrados diversas vezes pelo seu grande diretor de bateria, José Augusto Pereira da Silva, o mestre Guto.

Na semana passada, o diretor do site Setor 1 Israel Ávila recebeu Mestre Guto em sua residência para um bate papo informal e descontraído com o diretor de bateria do Estado Maior da Restinga. Mestre Guto contou sua história, suas realizações e expectativas as quais você leitor acompanha a seguir.

SIMPLICIDADE E DEVOÇÃO

O estopim para o grande sucesso deste personagem do samba começa no ano de 1988 onde pela primeira vez José Augusto “ouviu o clamor do cisne” e adentra os portões da Restinga. Seu primeiro desfile na escola foi na ala Claudino.

O amor pela escola a cada dia que passava ia crescendo mais e mais. No ano seguinte desfilou na ala Futuro. O baque veio em 1990 quando Guto não pode desfilar por que repetiu o ano escolar.


Em 1991, a história começou a ser escrita na área musical da entidade. Mesmo contrariado pela mãe, ele com sede de aprendizado ingressou “por baixo dos panos” na bateria mirim do então mestre Robinho (hoje intérprete da Praiana) onde começou tocando repenique. Em 1992 demonstrando alta dedicação e desempenho, sob os olhares de mestre Estevão, ingressa como ritmista da agremiação até 1998.

Sempre bem quisto pela comunidade e pelos colegas da classe, o jovem foi ocupando seu “lugar ao sol” e com isso no período de 1999 á 2001 desempenhou função de alta confiança em bateria de escola de samba, auxiliar de direção. Eis que surge mais um personagem em sua vida que apostou e viu liderança e competência para tal, esse foi Ubirajara Franco.

Fato importante a ser salientado foi o ocorrido em 2002 quando em meio a diversas dificuldades da escola por falta de verba, e com a saída do mestre Estevão para Bambas da Orgia nas proximidades da apresentação oficial, a escola viu-se sem seu mestre. O clima era tenso. Entre reuniões de grupos e opiniões divergentes, eis que em meio a diversos nomes apontados paro o cargo surge o nome do jovem José Augusto. A bateria foi o seu escudo naquele momento. Muitos foram contra em virtude da sua idade, até que o presidente Bira decidiu dar oportunidade para esse grande nome que já se destacava pela comunidade.


Sempre sagaz e com gana por desafios aceitou o cargo e acabou emplacando e arrancando em sua primeira apresentação com as três notas máximas. (Na época eram três jurados, todos da capital).

Em seu currículo de quase 15 anos como mestre de bateria, apenas 4 foram as apresentações em que o mestre Guto não alcançou a nota máxima, o último ano que isso não ocorreu foi 2015.

Diversos fatos importantes regam a carreira de Mestre Guto frente à bateria da sua escola do coração, escola do seu lugar. O posicionamento dos ritmistas na avenida, o efetivo envolvido – e que, diga-se de passagem, não é nada pequeno (seu maior efetivo de ritmistas foram 252), são fatores que fazem dele um especialista na sua prática. Com bateria extensa diversas vezes os cortes tem que ser feitos.

Em 2006, ele na incumbência de fazer abrilhantar ainda mais sua bateria decide ir para o “planeta carnaval”, o Rio de Janeiro. Nessa viagem se deparou com um senhor instrumento com som marcante e tradicional por lá agogô com 4 bases. Fascinado, ele decide ir atrás do criador do instrumento para levar o verdadeiro aprendizado do instrumento para a tricolor da Zona Sul. E hoje o instrumento é identidade da agremiação e espelho para tantas outras que por intermédio deste genioso e visionário “profeta do samba e do carnaval” agregaram este a suas baterias.


A trajetória do amigo e espelho de realizações são pedra base para toda comunidade tinguerreira. Foi possível notar que cada vez que tocávamos no assunto do seu lugar as vibrações e palavras saiam com mais animo e com mais apreço. “A restinga e a bateria os tinguerreiros são o meu oxigênio. A minha vida é aquilo ali”, diz Mestre Guto.

Assim como nem só de pão vive o homem, o carnaval também carrega seus dissabores. Entristecido José Augusto se preocupa com a maneira de como está sendo visto o carnaval por muitas pessoas. Em momento da entrevista o próprio salienta: -“Muito do fundamento do carnaval está se perdendo, infelizmente. E peço a Deus para ter força para seguir em frente”.

Diversas vezes já se passou pela cabeça do diretor de bateria sobre afastamento do carnaval neste posto. Os desgostos se tornaram pesados para ele. E na época, só não o fez por preocupar-se em quem seria a pessoa capacitada para substituí-lo. Hoje o quadro não é mais o mesmo. Ele salienta que já articula em sua cabeça os possíveis sucessores para o cargo, quando sua hora chegar.


Outro ponto deste visionário é a questão da aglomeração de destaques frente à bateria. Na sua concepção, os destaques teriam que ser distribuídos de maneira diferente o que de certa forma, atrapalha o andamento da bateria. Segundo ele, a apresentação da bateria ficaria mais limpa apenas com madrinha conduzindo a apresentação.

O amor pela bateria é incondicional. Os agradecimentos do mestre Guto são muitos, e não seria surpresa para ninguém se os mesmos não começassem tratando dos tinguerreiros. “Agradeço de coração a todos os ritmistas, vocês juntamente com o símbolo maior da nossa Restinga, são meu escudo”. A sua família que está sempre apoiando e incentivando seu trabalho, as presidências da agremiação que incessantemente apoiaram e “compraram” a idéia revolucionária deste jovem, seu muito obrigado. As agremiações fora da capital onde teve o privilégio e a honra de estar à frente da bateria, Estação Primeira de São Léo e Acadêmicos do Rio Branco. E é claro e não menos importa sua comunidade, sem a qual não existiria Estado Maior da Restinga.

Finalizando a entrevista, o mestre esboça suas pretensões e expectativas para 2016. Esse ano, segundo ele, o trabalho será intenso. Sua maior preocupação é a “limpeza do ritmo”. O pilar para seu trabalho em 2016 será este. E sempre levar para a avenida a felicidade e  a honra de ser Restinga, de ser tricolor da Zona Sul.
Preparem-se espectadores e admiradores, o cisne esse ano alçará vôos mais altos e prepara grandes surpresas.

Parafraseando a canção Meu Lugar de Arlindo Cruz é nítido a intensidade com que mestre Guto carrega aquele lugar no seu coração. Um lugar que é cercado de luta e suor, cheio de esperança num mundo melhor e no final, aquela cerveja pra comemorar. Um lugar que é sorriso e paz e prazer e para ele o seu nome é sempre doce dizer... Restinga

Direto do berço do samba com sua humildade, simplicidade e devoção esta foi a entrevista com o grande José Augusto Pereira da Silva, 39 anos, educador social e diretor de bateria da Estado Maior da Restinga.