quinta-feira, 26 de março de 2015

Ouvindo histórias de Rosicler...


O Ouvindo Histórias desta edição, conta um pouco do que foi e a trajetória e a história de uma consagrada Porta Bandeira do Carnaval Gaúcho. Seu nome: Rosicler Padilha, a Rose. A multicampeã, dançou ao lado de grandes mestre salas e ostentou bandeiras tradicionais do carnaval do Rio Grande do Sul, como Império da Zona Norte, Bambas da Orgia, Imperatriz Dona Leopoldina e Academia de Samba Praiana.

Nesta edição...Em uma tarde muito quente, de vento agradável e arrefecedor, na Quadra do Imperadores do Samba, onde aconteceu o “Conto de Bamba”, evento organizado pelo Curso de Mestre Sala e Porta Bandeira e Porta Estandarte, o Padedê do Samba, evento que conta com o aprendizado de pessoas e de ex-destaques, que trazem suas experiências carnavalescas aos alunos do curso. Aproveitei o ensejo para contar mais um capítulo da nossa coluna “Ouvindo Histórias”...


Inspirada, a porta bandeira Rosicler Padilha nos brindou com sua história, seu ingresso no carnaval, suas experiências e deu importantes conselhos a todos os presentes, de como deve um profissional do carnaval se portar e de como se tornar um destaque de sucesso...

Ela nos conta que conheceu o carnaval por acaso, através de suas amizades. Foi, influenciada por suas amigas, na procura do estrelato na fase da adolescência, que ela procurou investir em concursos de beleza, o sonho de todas as meninas desta fase. Ela nos conta que participou de vários concursos... não venceu nenhum, mas não desistiu... ela persistiu...

Convidada por uma amiga, Viviane, que desfilava na comissão de frente do Império da Zona Norte, foram até um atelier para a referida amiga experimentar a fantasia. Chegando lá, ela conheceu o Mestre Sala Zoca. Neste momento, ele se encontrava muito aflito e desabafou para as duas expectadoras de que sua porta bandeira estava grávida e não poderia desfilar com ele naquele ano... comentou também de que seu problema era grave, pois não tinha quem substituísse a consagrada Porta Bandeira Itanajara. Que inclusive havia mais um agravante: o de que a porta bandeira já teria recebido a metade do cachê (pagamento). Foi quando Rosicler se interessou pelo assunto, pergunta:

“[...]... Espere aí... me responda... como assim, a porta bandeira recebe dinheiro para desfilar no carnaval?”[...]”... Eis que ele responde: [...]...sim, recebe sim![...]”. Ela retoma dizendo: “[...]... mas então está aqui a tua porta bandeira, eu vou desfilar com você...[...]”

Quem assistiu Rosicler dançando glamorosa e muito bem produzida, jamais pensaria que quando adolescente ela era“dark” – sim, dark, uma espécie de rebelde, no estilo gótico, que nos anos 80 e 90 vestiam-se com roupas pretas e usavam maquiagens da mesma cor,numa forma de protesto pela sociedade constituída.


Disposta e decidida, ela insistiu com Zoca que ia ser sua porta bandeira. Isto era outubro de 1991 e faltavam apenas quatro meses para os desfiles... Rose não tinha a mínima idéia do que deveria fazer, conta que nem andava de salto alto direito, pois estava acostumada com seu “coturno”, uma espécie de bota cano alto, outra característica dos que se vestiam de preto... mas lá se foi ela... munida da coragem de se tornar uma Porta Bandeira...

Então, sua carreira começou nos idos de 1992, no Império da Zona Norte... depois de muitos ensaios ela foi anunciada como 1ª Porta Bandeira. Em sua primeira apresentação oficial, em uma muamba, minutos antes de entrar na passarela, ela presenciou um assassinato, em estado de choque ela adentra pela primeira vez na passarela, um misto de medo e emoção... mas ao final, conseguiu cumprir o percurso e desfilou.

No dia do desfile oficial, outro fatídico episódio: sumiu o primeiro pavilhão! Desespero total! E para piorar a situação, não havia uma liderança da escola no local que tomasse uma atitude de entregar-lhe um das bandeiras da escola. Foi então que alguém ‘correu’ até a quadra da escola e, improvisaram um cabo de vassoura e um estandarte que não seria utilizado, foi amarrado neste mastro... e lá se foram Rosicler e Zoca, mesmo com todas estas dificuldades conseguiram desenvolver uma bela apresentação, coroados com a nota 10!

Após este carnaval, foi convidada pela Ana Marilda Bellos para formar um grupo de apresentações para ir para o Japão. Foram para a cidade de Kanasawa, que na época fazia projetos de intercâmbio cultural com outras cidades no mundo. Embarcaram para o Japão Rosicler, Ana, Girozinho, Carla Pires e Mestre Estevão. “[...]... Foi muito interessante, pois todos tinham que fazer de tudo, eu era passista, bailarina, garota de Ipanema e Porta Bandeira...[...]”.


Rosicler, após contar algumas histórias e experiências, nos deu conselhos, que em minha opinião são muito pertinentes, nos dizendo que [...] o sucesso de um destaque é o quanto ele se dedicou para a sua carreira e o resultado vai estar no seu desempenho... [...]”. Ela acrescenta sabiamente que:[...]...para você ter sucesso e se tornar um campeão, você tem que ter muita disciplina, muito amor naquilo que você quer, naquilo que você sonha e naquilo que você almeja[...]”.

Sua sapiência foi além, com muita propriedade falou de sua postura que tinha, e que, ás vezes, comparava com a forma com que os demais destaques se comportavam. Pensava e repensava sua posição e seu modo de agir. Filha de militar primava pela disciplina e por manter tudo a sua volta em ordem e organizado. Era o seu modo de ser e de estar.

Ela enfatizou que ser destaque de uma Escola de Samba é algo muito importante, tanto para a pessoa, para o artista, como para a entidade, pois tamanha é esta importância, que o destaque que se apresenta deve ter em mente que:

[...]... as pessoas que vem nos assistir, elas querem ver um diferencial, um sorriso, um brilho no olhar, alegres, elas querem ver o que não se vê no dia a dia, pois o carnaval é alegria, carnaval é paixão, é um estado de espírito, uma maravilha... e as pessoas quando nos assistem, querem ver tudo isso em vocês destaques, vocês tem que oferecer isso ao público, é por isso que eles saem de suas casas, e vão até a quadra ou avenida para prestigiar cada um de vocês... o público quer ver algo diferente... as pessoas pagam ingresso para assistir vocês... façam da dança algo transformador, não transmitam cansaço, tristeza... não se comportem de forma inadequada, o destaque tem que transmitir alegria, vontade, beleza... é como se as pessoas quisessem “pegar” um pouco da energia de vocês, e levar para suas casas... [...]

Como os ouvintes de sua palestra eram muitos aspirantes ao estrelato, ao ‘glamour’ da passarela, ela deu alguns conselhos. Conselhos que em minha opinião são muito pertinentes em relação à disciplina, a persistência e a paciência e galgar os passos e as etapas em suas carreiras. Em suas palavras, Rosicler, muito inspirada nos disse:

“[...] Não desistam no primeiro obstáculo, pois muitos vão rir de você, mas se continuar, persistir e melhorar, para quem tem meta, as dificuldades são pequenas. Com objetivo e disciplina e um pouco de tempo para adquirir experiência, você vai longe. Pois tudo aquilo que você vê em uma pessoa, um destaque, se ele ou ela faz aquilo bem feito hoje, é porque ele ou ela treinou muito, ensaiou muito para conseguir aquela perfeição. Nada é pronto, tudo é conquistado, nada é do dia para a noite... não é só porque ela deu um ‘girinho’ que ela conseguiu... a pessoa que quer ser boa tem que ensaiar, tem que se dedicar, tem que ser disciplinado, tem que ser organizado... neste meu caminho eu conheci muitas pessoas organizadas, muitas outras não organizadas e todas as que não eram organizadas não conseguiram o sucesso... [...]”.


Ao final da palestra ela agradeceu a todas aquelas pessoas que a ajudaram, ao longo de sua carreira, citou alguns nomes como o de Rosalina Conceição, Onira Pereira, Mario Nienow... Agradeceu especialmente a sua mãe e parabenizou aos pais, mães e responsáveis pelos alunos que estavam presentes, destacou quão admirável é a dedicação destes pais em prol do desenvolvimento dos destaques.

[...] Quero agradecer também a minha afilhada Simone Ribeiro, que hoje está a frente deste projeto maravilhoso que é o Padedê do Samba... e lembro no início da minha carreira, e dos meus colegas, de que não tínhamos a quem recorrer, e a quem nos ensinar, aprendíamos com a escola da vida... queria eu ter esta oportunidade de ter tido esta presença de um curso ou de orientações que os alunos têm hoje... [...]

Para finalizar ela deu mais um conselho aos que assistiam a sua palestra, ela disse: “[...] Aproveitem as oportunidades... eu, por exemplo, não deixei passar nenhuma na minha vida. Todas as oportunidades que surgiram eu fui lá e fiz valer... [...]”.