quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Um dia para marcar a história de Porto Alegre



Sem sombras de dúvidas, esta terça-feira que passou, 2 de dezembro, que marca o Dia Nacional do Samba, também marcou um dia histórico para a cidade de Porto Alegre e para todo o segmento do samba e do carnaval.

Graças à ideia pioneira de Sérgio Peixoto, presidente do CETE, e assessorado por toda sua equipe (que durante o ano inteiro estuda, debate e pensa o carnaval (e sua memória) como um todo) a sociedade porto-alegrense pode presenciar (e mais que isso, talvez, vivenciar) um ato único em celebração àquele que é patrimônio cultural do país: o samba.

O palco de toda essa celebração não poderia ter sido outro senão a Igreja Nossa Senhora das Dores, no centro. Templo este erguido por escravos, que deram a vida para edificar seus pilares, e na noite de ontem, receberam de volta seus ancestrais, para celebrar a sua herança, sua cultura.

O jornalista Cláudio Brito foi o mestre de cerimônias e emocionado, discursou na abertura, lembrando passagens de sua vida e sua relação com aquela igreja e com a raiz histórica que ela carrega. Após a fala, o grupo de dança do Afrosul realizou uma belíssima apresentação, na representação de orixás. As vestes brancas destacaram-se diante do dourado exuberante da igreja.

Grupo de Danças do Afrosul.

Sob os cantos do Coral do Cecune, um lindo cortejo adentrou a igreja. Rei e rainha do maracatu, Rei Momo Fábio Verçoza, o povo de Nação, baianas trazendo doces, flores, jarros com água de cheiro, as portas-estandartes  carregando seus pavilhões, os mantos sagrados das escolas de samba. Padre, frei e pai de santo. Uma tríade totalmente unida, no altar sagrado da Igreja, que lotou, de fiéis, de sambistas, de curiosos, de simpatizantes, de pessoas de todos os credos, para participar de um rito ecumênico jamais visto ali.

Frei Suzin, Padre Almeida (pároco da Igreja das Dores) e Pai Clóvis, os sacerdotes da cerimônia.

Padre Almeida abriu as falas religiosas, abençoando os fiéis presentes na Igreja e saudando a todos, seguido de Frei Suzin, que fez as bênçãos às águas trazidas pelas baianas, para a lavagem da igreja. Em seguida, Pai Clóvis e seu grupo, ao som dos tambores dos alabês, fizeram um lindo xirê, com cantos aos orixás em plena igreja.

Os cânticos aos orixás ecoaram pela Igreja das Dores.

Após os ritos, Renan Ludwig e Tom Astral subiram ao altar e cantaram o grande homenageado do dia: samba! Nos primeiros acordes do cavaco, a batucada tradicional da bateria do Estado Maior da Restinga, regida por Mestre Guto, entrou na igreja, trazendo toda a energia do carnaval para a cerimônia. E foi ao som de surdos, tamborins e agogôs, que o público foi convidado a ir até as escadarias da igreja, acompanhar o ritual da lavagem e das bênçãos aos estandartes.

Baianas ofertaram os doces, enquanto as demais lavavam as escadarias, que passaram a exalar um mágico perfume. Em seguida, os sacerdotes abençoaram os estandartes, que ao final, giraram livres e imponentes, ao som da bateria.

Os estandartes foram abençoados no Dia do Samba.

Um único porém, que se pode lamentar deste dia tão festivo, foi quanto a presença de pavilhões na cerimônia. Por exemplo, das 10 escolas do Grupo Especial, apenas quatro estavam representadas lá com seus estandartes: Bambas da Orgia, Copacabana, Imperatriz Dona Leopoldina e União da Vila do IAPI. Imperatriz Leopoldense, Academia de Samba Praiana, Realeza e Unidos do Capão foram as presenças do Grupo A. Pelo Acesso, União da Tinga, Fidalgos e Aristocratas, Acadêmicos da Orgia e Protegidos da Princesa Isabel. Padadê do Samba e UDESCA também estiveram representadas, assim como pavilhões de outras cidades.

A repercussão do ato

A equipe do Setor 1 conversou com o coordenador das Manifestações Populares da cidade de Porto Alegre, Joaquim Lucena sobre a importância e a representatividade deste ano para a cidade e para a cultura.

SETOR 1: O que acontece hoje aqui na cidade, graças ao CETE, é um marco para a história da cidade no geral. Como o senhor avalia importância dessa ação dentro do samba e da cultura carnavalesca de Porto Alegre?
JOAQUIM LUCENA: É muito importante porque mostra o outro lado do carnaval. Mostra o lado intelectual, o lado do carnaval também ser gente, o carnaval também ter religião. Isso é muito bom porque é um exemplo para todo o Brasil, como tem na Bahia, eu já assisti isso lá.  Então nós aqui de Porto Alegre, fazemos já um embrião da irmandade de religiões e isso é muito bonito.

S1: O Dia do Samba aqui em Porto Alegre ele já é uma data no calendário oficial de atividades da cidade, como acontece no Rio, São Paulo, ou ainda há esse caminho a seguir?
JOAQUIM LUCENA: Nós começamos dentro da pasta de Manifestações Populares esse movimento e em breve eu acho que a gente vai conseguir, ou melhor, nós conseguiremos, que tenhamos esse dia realmente consagrado pelo poder público.

O cortejo foi um dos pontos altos da celebração.

Nossa equipe também conversou com um dos sacerdotes da cerimônia religiosa, o Frei Luis Carlos Suzin, que falou sobre a ligação entre a cultura e a religião.

SETOR 1: Hoje está acontecendo uma manifestação história para o carnaval, e até mesmo para a própria Igreja da Nossa Senhora das Dores. Como o senhor vê a sua participação hoje, nessa cerimônia em homenagem ao samba, inter-religiosa, inter-cultural?
FREI SUZIN: Eu acho que se pode dizer, em primeiro lugar, que isso é um sintoma do tempo em que nós estamos vivendo, em que nós não podemos mais nos fechar em pequenos guetos, redutos, grupos que se consideram distintos de outros. Precisamos olhar como família, com humanidade, como herdeiros de uma cultura, de uma tradição que tem muitas raízes, e que para a Igreja das Dores, é um grande privilégio isso, pois a Igreja das Dores pode abrigar uma espécie de auto redenção, já que a gente sabe que as paredes dessa igreja foram erguidas com suor escravo. E que o povo afrodescendente, povo negro, possa encontrar nessa igreja uma referência que de alguma forma é um privilégio para a própria igreja. Então, pra gente é uma oportunidade que nós temos de finalmente confraternizar com quem nos oferece a chance da gente se tornar uma família. Então esse aspecto de grande família com diferentes culturas, de diferentes raízes que estão aí para se enriquecer mutuamente, realmente merece ser festejado. E claro que nesta igreja isso é muito bonito.

S1: O senhor já acompanha o carnaval, essa cultura, ou é a primeira vez que acompanha um evento assim que reúne este tipo de manifestação?
FREI SUZIN: Olha, eu estou com os pés lá na vila Maria da Conceição há praticamente trinta anos. Então é claro que eu já vinha assistindo carnaval, torcendo pela Samba Puro, porque é o pessoal da casa (risos) e sobretudo depois que a própria Samba Puro resolveu homenagear a mim junto com outras pessoas da vila, é claro que eu me senti cada vez mais identificado com a escola. E participante, seja da alegria, da energia, como também do aprendizado, de relações afetuosas que a gente perpassa nessas experiências. Então eu realmente me sinto muito em casa por causa dessa trajetória lá na Maria da Conceição.

S1: Carnaval e religião então podem andar juntos em plena harmonia...
FREI SUZIN: Carnaval e religião, no fundo, no fundo, tem a mesma raiz, a mesma fonte que é a fonte da possibilidade de alegria. Da possibilidade de a gente brilhar. Quando a gente diz ‘glória a Deus’, a gente está dizendo que Deus brilhe e o brilho de Deus tá no brilho das pessoas. E o carnaval é uma festa para brilhar. Então eu acho que casa do ponto de vista natural essa observação. E a gente pode ver isso. Inclusive eu fiz meus alunos, na PUC, verem o quanto os sambas enredo, os temas, os motivos de carnaval, estão ligados à profundas experiências de raízes religiosas. Eu sempre encontrei raízes religiosas no carnaval e eu quis mostrar isso pra eles para que a gente possa se aproximar mais.

A bateria da Restinga embalou o público e também emocionou.
O evento foi notícia em diversos meios de comunicação nesta quarta-feira, 3, mostrando que a valorização da cultura do samba e do carnaval está viva e assim deve permanecer. Foi, sem dúvidas, uma cerimônia marcante. Parabéns ao CETE pela iniciativa, ao Sérgio Peixoto, grande idealizador, e aos parceiro por abraçarem essa ideia. O nosso samba merece.