quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dia Nacional do Samba em Porto Alegre


Hoje eu vou contar o que vi, no que defini como um momento histórico para o samba, para a cristandade, para o carnaval, e para as religiões de matriz e de influência africana. Momento de grande importância para aquelas pessoas que pregam uma cultura de harmonia e tolerância, de aceitação e celebração da paz entre os povos e culturas... emocionado com tudo o que presenciei, tentarei a seguir descrever em palavras, todas as imagens que vi, os sons que ouvi, os cheiros e toda a energia que senti durante os acontecimentos do dia dois de dezembro de dois mil e catorze na rua da Praia, a rua dos Andradas em Porto Alegre.

Tudo isso aconteceu em um grande Ato Ecumênico realizado na Igreja Nossa Senhora das Dores em Porto Alegre. Vou chamar assim, de “Ato Ecumênico” uma vez que o ecumenismo – deriva de uma palavra grega que significa unidade de religiões. Também poderia dizer que este evento foi uma grande celebração que ocorreu em comemoração ao dia dois de dezembro – Dia Nacional do Samba. A ideia partiu do CETE – Centro de Estudos e Pesquisa em Tema Enredo, tendo na figura de Sérgio Peixoto a liderança e a ideia principal do cerimonial.

Cláudio Brito foi o mestre de cerimônias.

A Celebração foi iniciada por Cláudio Brito que “abriu os trabalhos” com sua presença marcante de orador. Sua voz silenciou a multidão que lotou a igreja. Pediu a todos para que fizessem o sinal da cruz, ato repetido por todos os presentes... logo após, saudou Bará, o orixá dos caminhos. Salientou que aquele ato era algo que mudaria para sempre Porto Alegre. Convidou a todos para proferir a palavra dos umbandistas: Saravá! E a resposta veio em uníssono...

            Cláudio Brito pediu licença a todos e a Nossa Senhora das Dores para contar um pouco de sua história, pois fazia parte do seu cotidiano aquela grande e alva Igreja. Emocionou-se e emocionou os presentes contando de suas origens, de sua mãe, das complicações da paternidade, dos padrinhos negros “retintos” que o levaram a pia batismal daquela Igreja. Foi coroinha naquele altar, e que naquele momento, estar ali presenciando tal ato, era para ele um momento especial. Saudou a iniciativa e prosseguiu.

Era uma aula a sua locução! Contou a origem do Dia do Samba, de onde surgiu o dia de comemoração nos dizendo:

“[...]... o Dia do Samba ou o Dia Nacional de comemoração do Samba começou por uma iniciativa de um baiano, que homenageou Ary Barroso, quando este esteve na Bahia... [...] ele que era um sambista apaixonado, que cantava a Bahia de Todos os Santos em seus sambas, porém nunca esteve na Bahia...[...] Tamanha importância desta data... ela se espalhou para o resto do Brasil e chegou até nós... [...] ... a exemplo do vinte de novembro, Dia de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, na qual Porto Alegre foi pioneira e que, ao processo inverso ao dois de dezembro, também tomou uma proporção nacional...[...]”

Ele destacou da importância e do ineditismo daquele ato, saudou os Estandartes das Escolas que adentravam a igreja, empunhados pelas damas do carnaval. Saudou Onira Pereira, símbolo máximo da condução dos brasões das Escolas de Samba. Lembrou novamente o Orixá Bará, que assim como a divindade, o estandarte abre os caminhos nos desfiles e citou a ligação histórica das procissões e peregrinações católicas na influencia dos desfiles de carnaval. Brito ia intercalando, comentando e fazendo ligações, com maestria, os costumes e liturgias católicas e de matriz africana.

A seguir, surgem à frente do altar o grupo de danças Afrosul, paramentados, dançaram com energia e empolgação. Logo após, o Coral do Centro Ecumênico de Cultura Negra – CECUNE sobe ao altar, demonstrando emoção em seus semblantes e em suas vozes. Um momento arrebatador!

Coral do CECUNE fez uma bela apresentação.

O momento era histórico e emblemático, uma vez que a Igreja Nossa Senhora das Dores foi construída e concebida á época da escravidão do povo negro, e estes idealizaram um local para celebrar a fé, onde poderemos verificar que:

[...] Membros da irmandade devota a Nossa Senhora das Dores rezavam missas na Igreja Matriz, atual Catedral Metropolitana, até 1807, quando resolveram construir o seu próprio templo, lançando a pedra fundamental em um terreno entre as ruas do Cotovelo e da Praia, às margens do Guaíba. No início, esmolas eram levantadas pela comunidade local para construir e decorar a igreja. Em 1813, inaugurada a Capela-Mor, foi realizado o translado da imagem de Nossa Senhora das Dores; a partir de então, as energias e esmolas se voltaram para a construção do interior da igreja. [...]

A cerimônia deu seguimento com o Cortejo do rei e rainha do Maracatu e seus pajens. Junto a estes estava outro rei, o Rei Momo Fábio Verçosa com sua simpática e sorridente presença. Logo após a entrada do cortejo real, chegam à frente do grande altar algumas Mães de Santo com ânforas e jarros contendo flores e água de cheiro. Muitas baianas das Escolas de Samba, fiéis com suas roupas brancas e fios de contas acompanhados de alabês. Na assistência lotada do culto, era notável a curiosidade e a emoção do povo. Houve a benção dos Padres Luis Carlos de Almeida e do Frei Susin e na sequencia a benção e saudação de Pai Clóvis com um pequeno Xirê com saudação aos orixás de Bará a Oxalá e, após, junto aos padres e ao frei, abençoaram as aguas que, no final do ato ecumênico, serviram para lavar as escadarias da Igreja.

Flores e água de cheiro para a lavagem das escadarias da Igreja das Dores.

A seguir, a bateria do Estado maior da Restinga adentra a Igreja e Renan Ludwig, com a harmonia de cordas de Tom Astral interpretam o samba “Portela na Avenida”, o povo responde cantando e aplaudindo... a bateria “puxa” o cortejo, e todos seguem para as escadarias para a benção final. Os estandartes das Escolas são abençoados. Ocorre a distribuição de doces pelas baianas. Neste momento o ritmo contagiante da bateria da Restinga toma conta de todos e os estandartes giram, como se invocassem os antepassados negros e sambistas para juntos celebrar. Uma apoteose se arma na calçada da igreja.

Renan Ludwig e Tom Astral foram a harmonia carnavalesca na celebração do Dia do Samba.

Em meio a este povo, fui surpreendido por uma das fiéis e frequentadoras da Igreja Das Dores. Era Dona Maria Lavínia Lisboa comentando da grandeza e da beleza daquele culto que estava acontecendo. Ela nos disse:

[...] ... olha... eu sou frequentadora desta Igreja há muitos anos e nunca tinha visto algo deste gabarito... [...] ouvi no programa do Brito que teria esta cerimônia... estou emocionada com a história de sua infância... [...]... vou conversar com o Padre Almeida para que coloque este evento no calendário da Igreja... para que este povo volte aqui com suas cores e sua energia...[...]


Foi, sem dúvidas, uma cerimônia sem precedentes para o povo de Porto Alegre. Creio que este acontecimento terá proporções grandiosas e positivas. A turma do CETE foi impecável na condução do ato como um todo. Todas as pessoas as quais eu ouvia e conversava, comentavam do ocorrido, discorrendo de elogios e de emoção durante a celebração. No registro, era percebida a presença em meio ao povo de diversas autoridades do nosso carnaval. Foi um evento sublime. Oxalá queira e nos permita termos esta grande celebração de paz entre as religiões no próximo ano.

Fontes: