segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Samba de gaúcho na Sapucaí em 2015

Centeno com Rachel Valença, baluarte do Império Serrano.
O gaúcho foi um dos autores do samba de 2014 da escola da Serrinha. 
Por Édy Dutra

Dezembro chegando e logo logo o CD das escolas de samba já estará nas prateleiras das lojas. O Setor 1 teve uma rápida conversa com Juliano Centeno, gaúcho de Porto Alegre, autor de diversos sambas pelas escolas do nosso carnaval, principalmente pelos Bambas da Orgia. E para 2015, Juliano experimentará uma sensação única. Ter seu samba cantado no desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro. É que o compositor, junto com seus parceiros e amigos Carlinhos Petisco, Serginho 20, Machadinho, Paulinho Valença, Henrique Hoffman, Victor Alves, Popeye e Filipe Araújo, compôs o samba que embalará o desfile da Vila Isabel, no domingo de carnaval, na Marquês de Sapucaí. Juliano conversou com a gente sobre sua trajetória de compositor e sobre o samba como um todo.

SETOR 1: Juliano, tu já é um compositor conhecido aqui no Sul que já está trilhando um caminho promissor no centro do país. Primeiramente, como surgiu o Juliano compositor?

JULIANO CENTENO: Não sou de família carnavalesca, mas sempre gostei de escrever e sempre gostei de carnaval, acompanhava os desfiles pela TV... Tinha todos os discos. Realmente sempre fui muito mais atraído pela parte musical dos desfiles...O primeiro contato realmente surgiu com amigos que fiz pela internet. Até que no ano de 2002 (para o carnaval 2003), um destes amigos, Daniel Barbosa,me convidou para juntos participarmos da disputa de samba no Bambas da Orgia! Ai estou até hoje (risos)

S1: Você então começou sua trajetória participando dos festivais dos Bambas da Orgia, onde também se saiu vitorioso. Isso há mais de 10 anos. Como tu vê as disputas hoje? Continua participando ou o foco agora é o Centro do país?

JULIANO CENTENO: Sim, comecei nos Bambas da Orgia, onde logo na segunda tentativa conseguimos sair campeões. De lá pra cá foram 6 sambas, que com muito orgulho, o Bambas levou para a avenida. E continuo participando sim. As disputas hoje em dia mudaram um pouco, a concorrência é forte, com compositores que também fazem o caminho inverso e vem para cá. O foco é o carnaval! Continuarei sempre que possível participando.

S1: Participa apenas no Bambas ou em outras escolas daqui também? Pergunto isso porque acredito que o compositor, "estuda" o estilo da escola antes de fazer o samba pra ela. É difícil, por exemplo, para um compositor pegar um enredo (que atualmente sofrem com a onda de patrocínios) e passar pro samba, para deixá-lo com a cara da escola?

JULIANO CENTENO:Já participei em diversas escolas.Ao todo foram 19 sambas que já passaram na avenida. Porém hoje, por todas estas mudanças que comentamos anteriormente, e também pelas oportunidades que surgiram fora do RS, creio que seja difícil participar em tantas escolas. É importantíssimo conhecer a escola, o enredo... Quanto aos enredos patrocinados, acho que são um fator a mais para dificultar os compositores a fazerem belas obras. Samba é preciso transmitir emoção. Sem ela, fica difícil. E isto é muito difícil acontecer com temas patrocinados, e também, sem ter envolvimento algum com a escola.

S1: Tu havia comentado anteriormente sobre os compositores que estão fazendo o caminho inverso, saindo dos grandes centros e indo para outras praças do carnaval, como o nosso aqui de Porto Alegre. Acredita que há uma certa resistência com nosso compositores gaúchos fora daqui, resistência essa que não há com quem vem de fora? Partindo do pressuposto que tu é o primeiro que vai ter o seu nome no CD dos sambas do Rio de Janeiro. Outros tantos já tentaram, mas não tiveram sucesso. Porém, compositores cariocas, paulistas, enfim, já conseguiram mais facilmente vencer aqui no Sul.

JULIANO CENTENO:Não no meu caso, pois meu parceiros de samba fora do RS são antes de mais nada grandes amigos que fiz, ídolos! Não sei medir esta resistência que pode acontecer, porém, quando o caminho inverso é feito, existe muito mais aceitação sim, com os compositores que chegam aqui. Eu já tive o nome!!(risos) Ano passado (2014) venci o samba no Império Serrano, o que muito me honra... E também na minha escola carioca, o Arranco do Engenho de Dentro. Mas não fui o primeiro também. Daniel Barbosa, meu primeiro parceiro, já venceu em duas oportunidades no Rio (Rocinha e Boi da Ilha). Este ano,Glaucio Guterres também foi campeão na Em Cima da Hora... Concluindo, o porquê que eventualmente compositores de fora tem mais aceitação, não sei.

S1: Mas no grupo Especial, tu és o primeiro mesmo, não?

JULIANO CENTENO:Sim, no Grupo Especial sim. É uma honra e até impensável há tempos atrás,não fossem os parceiros e amigos que tenho. Mas ter um samba na Sapucaí já foi uma grande honra, independente de grupo!

S1: Sobre isso mesmo que eu quero falar... Tu também ganhou em escolas de tradição enorme, como Império Serrano, Arranco e agora Vila Isabel. Como amante do carnaval, certamente, deve ser uma emoção mesmo. E também para o ego, como compositor, de ver seu samba na voz de comunidades grandiosas...

JULIANO CENTENO: Cara eu não penso tanto no ego....penso na satisfação e emoção como compositor. Ainda mais tendo o samba cantado por escolas muito queridas, Bambas e Arranco, tradicionalíssimas como Império Serrano e Vila Isabel... Como falei antes, a emoção, esta sim, fala mais alto.

S1: Além do RS e RJ, para aonde mais você compôs samba?

JULIANO CENTENO: Já fiz sambas para a Unidos da Coloninha (Florianópolis), Flor de Liz (São Paulo) e interior do nosso Estado também.

S1: O fato de fazer sambas para outros Estados, outras cidades, dá pra conhecer mais ou menos o estilo de samba que tal cidade ou escola gosta? Tem como fazer essa diferença ou o estilo de samba é o mesmo para qualquer carnaval? Porque se fala muito na diferença de estilos, principalmente de sambas paulistas para sambas cariocas ou gaúchos, por exemplo, em termos de levada, melodias...
JULIANO CENTENO:Acho que o que muda principalmente é o andamento que as baterias dão aos sambas. Este sim muda de lugar para lugar, é o que eu vejo. E sim, cada escola tem o seu estilo peculiar de andamento, etc. O samba é universal, não fosse,não teríamos este "intercâmbio" todo hoje.

S1: Para 2015, Vila Isabel é a grande conquista. Tem mais sambas para o próximo carnaval?

JULIANO CENTENO: Não. Disputamos no Bambas da Orgia este ano mas fomos derrotados... O Arranco reeditará um carnaval antigo ano que vem. Então não haverá disputa de samba. Ficamos "só" com a Vila... (risos) Quantidade não é o foco! O samba hoje é um projeto complexo! Envolve muita gente, então penso ser inviável ter vários sambas em um só ano... Também há uma questão de tempo, financeira, decisões de parceria...

S1: Falando neste ponto de quantidade. A gente sabe que hoje temos no carnaval as famosas "firmas", que fazem sambas para diversas escolas, contratam profissionais para tratar destes sambas, enfim. Tu, como compositor, como vê a influencia dessas firmas no meio do samba?

JULIANO CENTENO:De fato elas existem, porém são as escolas que escolhem o samba. Sem a aceitação delas, as firmas "não andam". A influência que elas geram é "a inflação" dos custos das disputas de samba, o que às vezes torna as disputadas desiguais.

S1: Manter um samba numa disputa gera um alto custo...

JULIANO CENTENO: Sim, gera sim.

S1: De todos os sambas que tu fez,  esse da Vila para o próximo carnaval que certamente será guardado com um carinho ímpar, claro, tem algum especial?

JULIANO CENTENO: É difícil responder... Todos tem um carinho especial. Tirando o da Vila, o primeiro de todos no Bambas, o primeiro no RJ, no Império, o primeiro no Arranco, é difícil responder! Todos na verdade tem uma história, então todos são especiais.

S1: Juliano, muito obrigado pelo tempo pra gente conversar. Nossa equipe te parabeniza pela conquista e que esse sucesso te acompanhe sempre! Muito obrigado e parabéns!

JULIANO CENTENO: Valeu cara, obrigado a vocês! Lembro que o sucesso não é meu, é sempre da parceria (isto se esquece um pouco às vezes), mais ainda quando estamos a distância.

Logo do enredo da Unidos de Vila Isabel para 2015.

 A Unidos de Vila Isabel desfilará na Sapucaí no domingo de carnaval, sendo a quarta escola a se apresentar, com o enredo “O Maestro Brasileiro está na Terra de Noel, a Partitura é Azul e Branco, da nossa Vila Isabel”, de autoria do carnavalesco Max Lopes, em homenagem o maestro Isaac Karabtchevsky.

Autores: Carlinhos Petisco, Serginho 20, Machadinho, Paulinho Valença, Henrique Hoffman, Victor Alves, Popeye, Juliano Centeno e Filipe Araújo

O ENVOLVIMENTO SUAVE DA BATUTA
COM A POESIA DO POVO DE NOEL
EM SINTONIA O MAESTRO E SEUS MOVIMENTOS
E O SAMBA DE VILA ISABEL
TÁ NA SUA REGÊNCIA A DOCE MAGIA E A INSPIRAÇÃO
PRA GENTE TOCAR FELIZ O CLÁSSICO NA MAIS PURA RAÍZA
MAIS CORDAS, METAIS A VALORIZAR AS NOTAS MUSICAIS
TRAZ O SOPRO DE PAZ
EU QUERO CURTIR O GUARANI
NA ARTE RETRATOS DA VIDA O AMOR DE CECI E PERI
VIVER É AMAR E SONHAR
AO SOM DO “MENINO BRASIL”, O “CANTO DO UIRAPURU”
VILLA LOBOS A EMOCIONAR

LÁ VEM O TREM, O TREM CAIPIRA
CRUZANDO A FLORESTA, TRAZENDO EMOÇÕES
LÁ VAI EMBARCAÇÃO POR ÁGUAS SOMBRIAS
E O PURO ENCANTO DAS QUATRO ESTAÇÕES

SEGUEM NO COMPASSO A SWINGUEIRA
ORQUETRA BRASILEIRA, O BALÉ
BAILAM PASSISTAS, PORTA-BANDEIRA,
E A BAILARINA NA PONTA DO PÉ
SOLTO ENTÃO A VOZ NA CANÇÃO
QUE EMOCIONA A TODOS NÓS

DIGNIDADE VOLTA PRO NINHO
ISAAC E MARTINHO DÃO O TOM

NO AR A MAIS BELA SINFONIA
É DE ARREPIAR
COMUNIDADE UNIDA A CANTAR
RENASCE NUM SONHO LINDO A VILA DE NOVO SORRINDO
E A MÚSICA VEM BRINDAR

Você pode ouvir o samba aqui: https://www.youtube.com/watch?v=gOpD1jLttYs