segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Kenny Bastos: ... um gaúcho da gema!

O figurinista Kenny Bastos, 31 anos, abandonou os pampas pra ir residir no Rio de Janeiro e aqui deixou uma grande saudade: o carnaval do Sul. O carnavalesco é cria do Copacabana, mas foi na Vila do IAPI que teve maior notoriedade, e ficou conhecido por seu trabalho na escola do trem da alegria. Mesmo residindo em solo carioca, seguimos vendo em algumas quadras de Porto Alegre figurinos assinados por ele e enviados diretamente da “Cidade Maravilhosa”. Para saber um pouco da historia, e do que anda fazendo, convidamos o próprio Kenny para nos relatar através de texto exclusivo para o Setor 1...

Falando um pouco de mim...
Por Kenny Bastos

O carnaval sempre esteve na vida, desde sempre, o meu primeiro contato com o carnaval foi ainda na barriga da minha mãe, Cleusa Machado, que foi durante muitos anos foi porta-estandarte da Copacabana. Me lembro, da minha infância e de toda a movimentação que o carnaval causava na minha casa, era minha mãe indo para os ensaios e engomando a saias de filó, minhas tias costurando fantasias para alas inteiras e nos desfiles estavam todos juntos: lembro muito da minha tia Neuza, já falecida, e do meu tio Édson, seu esposo, que desfilavam em um mesmo carnaval em 10 escolas, praticamente saiam de uma escola e entravam em outra.

Ao mesmo tempo sempre tive a frustração, já resolvida, de não ter o mínimo talento para dançar e tocar instrumentos -falta ritmo. O que me sobrou foi o outro lado, trabalhar com a organização: Evandro Barbosa, também já falecido, foi a primeira pessoa que me incentivou a fazer a fantasias e me ajudou com os primeiros traços, isso mais ou menos em 1996/1997, em 2001 fiz um curso de confecção de adereços de cabeça com o professor Jorge Elmar (que pra mim, até hoje, é um dos melhores aderecistas do carnaval de Porto Alegre) mas o carnaval só ganhou um contorno mais sério em 2002, quando escrevi o tema enredo da Copacabana “Nobres e plebeus, embarquem com a Sereia nessa história embriagante e nessas águas borbulhantes”  em parceria com o Fabiano Araújo, que hoje é coordenador da Comissão de Frente da Imperadores. Daí em diante fui ocupando outros cargos na escola: em 2003 tornei-me diretor de destaques, em 2004 tive uma passagem pelo Acadêmicos da Orgia. Em 2006  voltei à Copacabana como carnavalesco. Em 2007 fui coordenador de barracão da Filhos da Candinha e 2008 tornei-me carnavalesco da mesma escola. Em 2012, escrevi tema enredo para Unidos de Vila Mapa. De 2009 a 2013 trabalhei na União da Vila do IAPI, que tornou-se um grande amor e onde eu tive oportunidade de ganhar experiência e tive, pela primeira vez uma excelente estrutura para desenvolver bons trabalhos. Sou grato a União da Vila do IAPI, pelo figurinista e aderecista que me tornei, e a oportunidade que recebi de Bráulio Pontes (diretor de carnaval da Vila na época) e do Presidente Jorge Sodré, que acima de tudo são grandes amigos.

Em 2012, na União da Vila do IAPI - Foto reprodução 

Em 2012, mudei de cidade, fui morar no Rio de Janeiro, muito em função de buscar novos desafios para minha vida profissional, sou professor de sociologia e geografia, e sempre foi um desejo trabalhar em projetos sociais, que é um campo relativamente bom no Rio. Além disso, o Rio sempre foi uma cidade que me encantou, pela sua natureza, pelas pessoas, pela sua informalidade e pelas suas possibilidades. Somado a tudo isso encontrei alguém que embarcou na minha loucura, e veio para cidade maravilhosa construir uma vida nova junto comigo. Mudar de cidade não foi um processo fácil, foi necessário abrir mão de muita coisa: família, amigos, o carnaval na intensidade que estava acostumado, mas acredito muito que a vida é feita de desafios e é necessário sairmos da nossa zona de conforto para crescermos.

Mesmo que eu não conviva com o carnaval no Rio de Janeiro na intensidade que eu gostaria, muito em função da minha profissão, pude ter contato com alguns profissionais que confeccionam fantasias e também alguns destaques de carros alegóricos. E no último carnaval pude realizar um grande desejo, que era fazer fantasias para o carnaval carioca: produzi dois destaques de alegoria para a Porto da Pedra, escola de samba do grupo A, para 2015 já apareceram algumas possibilidades para produzir destaques de alegorias, mas ainda vai depender do meu fluxo trabalho. Essa nova fase que vivo, me faz valorizar muito mais algumas coisas: como não tenho tanto tempo como tinha em Porto Alegre para me dedicar a essa paixão que é o carnaval, eu me permito fazer somente aquilo que me dá prazer, para pessoas que confiam e gostam do meu trabalho, isso também faz com que eu possa fazer peças muito mais elaboradas, com mais riqueza de detalhes. 

A grande diferença das fantasias cariocas é a riqueza dos detalhes, e hoje quando pego algo para fazer busco colocar identidade, e enriquecer cada peça: identidade que me caracterize como profissional, e que caracterize o estilo de cada cliente, respeitando sempre a temática da escola e a proposta da fantasia.E esse é um dos motivos que prezo tanto e gosto de fazer fantasias para Izaura Melo, ela usa as minhas criações desde 2011 (tanto roupas de show quanto avenida) quando foi segunda estandarte da Vila, acredito que o que fiz pra ela nesses 4 carnavais revela exatamente a evolução do meu trabalho, inclusive a mudança de patamar na confecção das fantasias a partir de 2013, quando pude adquirir novas técnicas e um estilo mais apurado. É muito bom trabalhar com quem confia no nosso trabalho. Também colaborou ter acesso a maior variedade de materiais, e materiais com maior qualidade. Sendo crítico: acredito que como eu fazia muitas fantasias ao mesmo tempo, quando morava em Porto Alegre, talvez antes talvez não tivesse “perna” para fazer tudo com a qualidade de hoje. 

Com Izaura Mello - Foto Giovanna Mello

O carnaval do Rio é muito diferente do carnaval de Porto Alegre. E o que torna tão diferente, é a forma como o poder público trata os dois espetáculos, acho esta diferença fundamental: é necessário, primeiramente que o poder público dê estrutura adequada para o evento através da construção da estrutura definitiva da pista e da manutenção adequada do Complexo Cultural do Porto Seco. É muito difícil buscar escolas de sambas de Porto Alegre buscar parcerias com a iniciativa privada se o palco base do espetáculo não é respeitado. No Rio, para além da estrutura da Sapucaí e da Cidade do Samba, quadras de escola de samba de várias escolas puderam ser reformadas com auxílio do poder público. Os profissionais do carnaval de POA são fantásticos, fazem um esforço quase sobrenatural para proporcionarem um ótimo espetáculo para o público.

Apesar de hoje, o Rio de Janeiro ser a minha casa (e não me imagino mais morando em POA), é inegável que o carnaval de Porto Alegre ainda faz parte da vida de uma maneira muito especial, e por isso faço questão de no carnaval estar em Porto Alegre, ir para avenida com a minha mãe e a minha tia Neiva, como sempre fizemos, estar junto da minha União da Vila do IAPI, e aplaudir amigos tão queridos que mesmo distantes continuam no meu coração.




Nome: Kenny Bastos.

Idade:31 anos.

Naturalidade: Porto Alegre

Função no carnaval:Figurinista, aderecista, temista e carnavalesco.

Profissão:Professor de sociologia e geografia.

Religião:Africanista.

No barracão da União da Vila do IAPI - Foto Diário Gaúcho 

Estado Civil: (   )Solteiro   (  X  )casado   (   ) namorando  (   ) enrolado   (    ) a procura

Escola que começou:
Copacabana.

Escola por onde passou: Acadêmicos da Orgia, Filhos da Candinha, Unidos de Vila Mapa, União da Vila do IAPI, Deu Chucha na Zebra (Uruguaiana) e Unidos do É o Tchan (Caxias do Sul)

Escola que está:Hoje não estou em nenhuma escola, tenho um atelier  de fantasias.

Escola do coração: Meu coração é originalmente Copacabana, mas depois de 5 anos vivendo muito intensamente a tricolor da Zona Norte, como diz a Dona Jussara Pereira, me tornei União da Vila do IAPI

Se não ocupasse a função que ocupa no carnaval, o que você seria? Diretor de Carnaval, como certeza.

Profissional do carnaval gaúcho que você admira:minha mãe, Cleusa Machado, que foi porta-estandarte da Copacabana por mais de 20 anos sempre foi e continua sendo meu exemplo de dedicação e de responsabilidade com o pavilhão de uma escola. Além dela, Jorge Sodré, Bráulio Pontes, Zé Cartola e Mestre Nilton recebem muito da minha admiração.

Sua obra na avenida - Foto Andre Gomes

Um carnaval inesquecível: 2009, foi o Carnaval mais importante na minha trajetória. Foi minha estreia como figunista na União da Vila do IAPI, ano em que tínhamos um grande tema (Arroz, o grão sagrado que na Vila tornou-se tesouro), um grande samba, lindos carros alegóricos e fantasias, nossa Rainha Vivian Trindade foi eleita Rainha do Carnaval, um desfile irretocável e animado, porém ficamos em 6º lugar, até hoje um resultado inexplicável, mas foi um momento de muita emoção.

Uma palavra: Reciprocidade

Um sonho: Aprender a costurar, mas já estou trabalhando nisso.

Um programa de TV: Decora (do GNT).

Um filme: A cor púrpura

Um amigo ou amiga: Janaína Rodrigues (1ªPorta Bandeira da Realeza) e Vivian Trindade (Madrinha de Bateria da União da Vila do IAPI).

Uma música: Stéreo, Preta Gil.

Um defeito: em alguns momentos sou bastante rancoroso.

Uma qualidade: Lealdade.

O que você vê de certo no carnaval: A renovação, novos destaques super talentosos e comprometidos que vem surgindo no nosso carnaval conquistando seu espaço.

O que você vê de errado no carnaval: A falta de apoio do poder público para efetivar a construção da estrutura definitiva do Complexo Cultural do Porto Seco.

Uma história de carnaval: “No carnaval deste ano (2014) fiz somente duas fantasias para o carnaval de Porto Alegre, para a Izaura Melo (segunda estandarte da Unidos de Vila Isabel) e a Jacqueline Soares ( segunda estandarte de Bambas da Orgia), o caso é que em função do meu trabalho atual viajo bastante, e o jeito que encontrei de fazer as fantasias era levá-las nas viagens comigo para bordar e adereçar à noite e na horas vagas, de dezembro à fevereiro viajava sempre com duas malas, uma com as minhas roupas e outra com as fantasias e o material de bordado. A fantasia da Iza, por exemplo, passou por 7 estados ao todo e o resultado final foi super bacana:  Além das fantasias terem ficado super bacanas, a Jacque ganhou o troféu Setor 1 de Melhor segunda estandarte e a Izaura ganhou o troféu Udesca de melhor segunda estandarte, ambas felizes e eu satisfeito de poder ter colaborado com amigas tão especiais”.

Obs: Aos amigos fotógrafos das imagens reproduzidas dos arquivos pessoais, sintam-se a vontade para nos informar a autoria e assim, colocamos os créditos.