quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da série: "Com que roupa eu vou!?" - Especial Onira Pereira

Olá pessoal! Hoje nossa coluna chega à sua penúltima entrevista desta “temporada”, digamos assim. E para contemplar você, leitor, a entrevistada de hoje é uma verdadeira águia. Aguerrida, formosa e imponente! Faltam adjetivos para descrever Onira Pereira, um dos grandes nomes de Bambas da Orgia e da história do carnaval de Porto Alegre, do carnaval gaúcho!

“A MAIOR PORTA-ESTANDARTE DE TODOS OS TEMPOS”

Quem nunca ‘tremeu na base’ quando esteve diante de alguém que é um ícone naquilo que faz ou já fez? Um mestre, um sábio, um expoente sempre vivo na memória das pessoas? E foi com um frio na barriga que eu fiquei frente a frente com Onira Pereira, numa conversa pra lá de especial em seu apartamento. O sorriso no rosto e o abraço carinhoso completam a recepção calorosa que tive, acompanhado de Gugu Lacerda, ao conversar com ela que, em 10 anos de desfiles no carnaval, marcou época, gerações, revolucionou.


Ainda jovem, assistia aos desfiles dos blocos e coretos, na Vila São José. A menina vinda de Osório (e cujo nome traz referências africanas) cresceu acompanhando a folia da capital. Teve um primeiro “namoro” com as cores vermelho e branco... Até que um dia, levada pela amiga Nara Matos, Onira conheceu aquela que seria a sua grande paixão carnavalesca: os Bambas da Orgia. “Nos primeiro ano, em 71, eu saí de destaque na escola. Foi também neste ano que eu concorri no concurso Boneca Café do Rio Grande do Sul e ganhei, representando o Bambas. Na final do concurso nacional, eu fui vice-campeã”, relembra.

Após o notório destaque nos concursos de beleza, Onira foi convidada pelo então presidente bambista na época, Alceu Soares de Lima, para ser a porta-bandeira da escola, para o carnaval de 73. Porém, na muamba do desfile, após dançar com o estandarte, ela decidiu que não levaria mais a bandeira da escola, e sim o pavilhão que a tornaria imortal na folia.

“Eu cheguei pro presidente e falei que não queria mais ser porta-bandeira e sim, porta-estandarte. E ele me olhou e disse: aqui tu serás o que tu quiser”, recorda Onira, emocionada.

E a decisão marcou para sempre sua trajetória na folia. “No meu primeiro ano, eu ganhei o prêmio de melhor porta-estandarte do carnaval”. E o jeito de dançar e vestir marcou época. “Eu nunca usei talabarte para dançar, sempre apoiei o estandarte no próprio corpo”, e quanto às roupas, ela lembra “Ari Chagas foi quem trouxe pra nós a noção da dança com saia, com vestido. Antes,as estandartes e bandeiras desfilavam de biquíni”, conta Onira.

Afastou-se da escola em 73 e 74, devido ao nascimento de sua filha, Guislaine. Em 76, retornou ao carnaval desfilando pelo Floresta Aurora. Porém, em 77, retorna à sua casa azul e branco, onde permanece até 84, encerrando o seu ciclo de desfiles no carnaval. Sobre essa passagem, Onira fala emocionada.

“Tive a consciência de parar quando tinha que parar. Eu adquiri mais amor ao carnaval do que antes”. Neste instante, Gugu exibe em seu celular um vídeo de um depoimento de Onira Pereira, em 1984, na dispersão do desfile de Bambas da Orgia, anunciando o fim de sua carreira como estandarte. As lágrimas não hesitam em brotar nos olhos de minha entrevistada, que se emociona.



“Sabe, Édy, eu acredito que eu vim nesta vida para cumprir uma missão. E acho que ela está sendo bem cumprida. Tudo o que eu conquistei no carnaval foi com dignidade e respeito. Eu aprendi a respeitar um pavilhão como um manto sagrado que ele é... Nunca fui funcionária de escola de samba, mas tanto eu quanto a escola sabíamos da importância dessa troca”.

Onira destaca a importância da postura de um destaque de escola de samba. “O destaque precisa ter uma postura mais correta possível. Eu tinha essa consciência de que, qualquer coisa que eu fizesse de errado, não era a Onira que estava fazendo, era a porta-estandarte dos Bambas da Orgia. O destaque precisa perceber que ele carrega o nome da escola junto com ele”, diz. Postura essa que ela foi moldando sozinha, também pautada pela essência da escola e que ela tratou de ensinar aos mais novos.

“Eu já vi porta-estandarte deixar o pavilhão dentro da lata de lixo para fazer de apoio. Um absurdo!... O estandarte é a estrela! A forma de carregar o estandarte, de se portar com ele quando ele não está armado, tudo eu fui aprendendo, observando e repassando. O cuidado com a roupa, que também é importante.”

Onira conta que sempre teve seu figurinista preferido. Roni Rocco desenhou praticamente quase todas as fantasias que Onira usou na avenida. “Eu também bordava minhas roupas”, conta ela, que após deixar a avenida como estandarte, seguiu trabalhando dentro dos Bambas, com os destaques.

“Eu e o Jorge, a gente fazia roupa para o grupo show. Foi no Bambas, através do nosso trabalho, que surgiu os grupos- shows temáticos. Cada dia era uma roupa. Um dia, todo mundo de branco, no outro, todo mundo azul com dourado, no outro, rosa e lilás! A gente ia inventando, criava penteado, deixa todo mundo parelho. O Bambas era uma escola muito bem vistosa, de encher os olhos!”, relembra.

Quando perguntada sobre a sua visão do trabalho das filhas, Guislaine e Kizzy, a emoção novamente tomou conta da conversa.

“Eu tive muito medo quando a Guislaine foi desfilar como estandarte do Império da Zona Norte. Eu não queria que ela sofresse a cobrança de ser minha filha. Eu estava tão nervosa, tão apreensiva. No dia da muamba oficial, eu estava na avenida, como jurada da maumba e... (neste momento, as lágrimas voltam aos olhos de Onira) quando eu vi a Guislaine entrando na avenida, ela foi tudo o que eu queria que ela fosse. Soberana, dona do estandarte, da avenida. (enxuga as lágrimas) E a Kizzy também me encheu de orgulho e tem uma história linda como bandeira, com sorrisão no rosto... Teve até uma época que elas trocaram né? A Guislaine foi pra bandeira e a Kizzy pro estandarte”.


E a passagem da Kizzy com o estandarte pelo Rio de Janeiro, na Imperatriz Leopoldinense, nos trouxe à passagem triunfante de Onira pela Marquês de Sapucaí, na década de noventa, marcando época no carnaval. “O Max Lopes e eu nos conhecemos há uns quatro anos antes. Na época, ele estava preparando o enredo dos ciganos na Viradouro. E aí me convidou para sair na escola, mas eu não quis... Anos depois, ele voltou pro Rio Grande do Sul já nas pesquisas do enredo para a Vila Isabel, de 96. E novamente me fez o convite. Desta vez eu aceitei”, relembra, nostálgica.

“Cruzar a Sapucaí é uma emoção única”, revela Onira, que desfilou ainda pelo Estácio de Sá e pela Grande Rio. Ser enredo de escola de samba também mexeu com sua emoção, ao cruzar a avenida em 2011 com Império do Sol. “Ter sua vida contada na avenida é uma honra, inexplicável”, conta.

Lançando talentos por aí a fora, Onira também adotou afilhados. “Me orgulho quando vejo um destaque que eu ensinei brilhando na avenida, ou então me procurando, pedindo conselhos, depositando confiança... De certa forma, eu estou retribuindo tudo aquilo que eu tive daqueles que também me acolheram”. Onira conta que sempre procurou ajudar os destaques do carnaval. Até desmanchando roupas suas para criar novas àqueles que vinham pedir sua ajuda. “Nunca me neguei a nada. O que me importava era o destaque estar bonito, digno, na avenida, defendendo a sua escola”, conta.

E em meio a tantas mudanças no carnaval ao longo dos tempos, Onira se mostra adepta às influencias do tempo. Questionada sobre o uso da saia de armação nas estandartes, que hoje está ficando raro de se ver, ela é categórica. “A modernização é fundamental. Há quem dance bem com saia de filó, há quem não... Só não pode é desrespeitar o pavilhão. Isso jamais”.

A palavra respeito esteve presente durante toda conversa. Respeito ao pavilhão da escola, respeito ao carnaval. “Me incomoda muito essa divisão política que há no carnaval hoje. Onde se viu o carnaval ser desunido? A gente precisa se unir, se fortalecer”, afirma Onira.


Respeito ao próximo, respeito a todas as pessoas, à família. “Graças a Deus, eu tive um marido que foi muito bom pra mim. Ele não era do carnaval, mas acabou me acompanhando nessa trajetória, às vezes me orientando, dando dicas. (pausa, emociona-se) Tive um marido incrível, e filhos maravilhosos também”. E inevitavelmente, a lembrança de Max, seu filho falecido em 2008, se faz presente. Nesta hora, o meu papel de ‘jornalista’ fica de lado, para dar lugar ao amigo, servindo o que há de melhor para outro: o abraço de conforto.

E os minutos daquele abraço apertado e carinhoso, das lágrimas que deram lugar a um sorriso de “muito obrigado”, ficam gravados em minha memória. É a confirmação de que, tal qual na mitologia, os deuses também têm sentimentos como os humanos, meros mortais... “Eu agradeço a Deus por ter me dado as oportunidades que eu tive, esse talento que Ele me deu e por tudo o que eu conquistei.”, fala Onira.


E eu também agradeci muito a Deus, em meus pensamentos, pela oportunidade que Ele me deu de estar tão próximo e vivenciar esse momento único, ao lado de Onira Pereira, aquela que marcou para sempre seu nome nas páginas da folia.

E no próximo encontro, encerrando temporariamente os trabalhos da coluna, eu converso com ele que é um dos mais respeitados figurinistas do carnaval de Porto Alegre. Não apenas pelo desenho, mas pelas suas obras quem enchem de beleza os desfiles da vermelho e branco da Padre Cacique: Luciano Maia. Até a próxima!