segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A preservação da cultura carnaval foi abordada por Raquel Valença no CETE

Na tarde deste sábado, 13, o CETE (Centro de Estudos e Pesquisa Sobre Tema Enredo e Memorial do Carnaval) recebeu a visita de Rachel Valença, jornalista, historiadora e pesquisadora carioca. Para quem não conhece, Rachel é uma forte ativista da defesa do carnaval e da cultura afro-brasileira, sendo uma das responsáveis pelo projeto que instituiu, em 2007, o samba como patrimônio cultural do Brasil. Foi vice-presidente do Império Serrano, escola onde atua há mais de 40 anos.

Em sua segunda passagem pelo CETE, Rachel trouxe para os alunos o seu depoimento sobre a importância da preservação da cultura carnavalesca nos dias de hoje. Tendo o carnaval se tornado um meio muito comercial, a sua face quanto cultura e, principalmente, como meio de afirmação social foi se perdendo.


“O samba tem um papel importante na autoestima da sua comunidade. Lá atrás, o samba era perseguido, tratado como crime e hoje, é patrimônio cultural do país. As escolas de samba não se percebem mais como instituição cultural”, diz Valença, que ainda falou sobre a postura do negro diante da sua arte.

“A escola de samba é uma manifestação cultural negra. Discordo um pouco quando escuto falar que a escola de samba é de todo mundo, de branco, de negro, de quem for. Mas quando lá no início o samba era perseguido, sambista era preso e pandeiro era tratado como arma, não era todo mundo que estava lá para defender o samba”.

Em uma rápida conversa com a equipe do Setor 1, Rachel, que já foi jurada no carnaval de Uruguaiana por alguns anos, comentou também sobre a influência carioca nas demais praças de carnaval do país.

“O samba saiu do Rio de Janeiro e se espalhou pelo Brasil. Um pouco por conta da mídia, mas muito por causa de cariocas que foram transferidos para outros estados e que sentiam falta do samba nas suas novas moradas. Uruguaiana é um exemplo, onde oficiais cariocas da Marinha foram transferidos pra lá e fundaram escolas de samba, para sentir-se mais perto de suas raízes cariocas... Mas hoje, a particularidade do carnaval de cada região precisa ser preservada. O modelo carioca de escola de samba, de desfile principalmente, é bom, mas ao mesmo tempo é cruel, pois as outras regiões acabam querendo se espelhar no Rio e terminam por modificar a sua própria estrutura histórica e cultural, modificando a sua identidade local”.


Perguntada sobre a evolução dos enredos, Rachel foi categórica. “Os enredos hoje estão mais comerciais, é a evolução. Mas ainda há enredos interessantes e que vale a pena ser apresentados. Odeio enredo patrocinado. Mas ainda bem que existem carnavalescos, como Rosa Magalhães por exemplo, que dá nó em pingo d’água e transforma o patrocínio num pequeno ponto diante da possibilidade que o enredo pode proporcionar”.

A palestra de Rachel Valença para o CETE também foi marcada pela emoção da palestrante. Em alguns momentos, ela chegou a pedir desculpas pela emoção, principalmente nos momentos em que falava de sua escola, Império Serrano e da sua trajetória no samba. “Eu gosto muito de uma frase dita pelo Nelson Sargento, quando uma vez eu perguntei pra ele o que é o samba. E ele respondeu assim... ‘O samba é o modo mais bonito de se viver’”.

Ao encerrar, Rachel deixou o seu recado ao povo carnavalesco. “Somente a educação e a cultura, aquilo que nós produzimos, é que podem mudar esse país”.

Impossível não concordar com mestre Nelson Sargento e com os dizeres de Rachel Valença.
No próximo sábado, dia 20, o CETE recebe Júlio César Farias, professor, pesquisador de enredo e diretor cultural da Unidos da Tijuca.

Colaboração: Lauro Evaniro 
Fotos da matéria: Luis P. Fraga