terça-feira, 12 de agosto de 2014

...lá no interior, da escola de samba...


Além de ouvir Histórias, vou contando histórias... e esta coluna traz hoje um pouco das histórias das escolas de samba do interior, aquelas que não desfilam no Sambódromo do Porto Seco, que não tem a pompa e o glamour das grandes Escolas da capital dos gaúchos, mas que estão na luta pela cultura do carnaval.

O Ouvindo Histórias desta edição faz uma pequena e singela homenagem àquelas pessoas que “botam o bloco na rua”, provando que no sul do país se faz samba sim senhor! Não vou aqui citar nomes, por questão de fontes e de preservação dos protagonistas das estórias de hoje, mas aproveito o ensejo e estendo estas poucas palavras em reverência para aqueles/aquelas que dão o sangue e o suor por suas Escolas de Samba.

Discorro aqui da “queixa” e das cabíveis manifestações das dificuldades recorrentes de quem dirige uma Escola de Samba. Poderíamos escrever páginas e mais páginas sobre as Escolas de Samba do interior do nosso Estado, pelo volume de entidades carnavalescas que existem e pela formação de sambistas que elas geram. Mas, se por um lado são muitas as entidades, muitas são também são suas carências... Tamanha são as dificuldades de se por uma escola destas na rua, de construir um desfile (desenvolver o enredo, fazer os figurinos, compor o samba...).


As baixíssimas condições financeiras, tornam atividades simples, a complexas e inalcançáveis tarefas, como a de comprar materiais para as fantasias e alegorias, os instrumentos de percussão e tantos outros recursos para manter a quadra, pagar a luz, a água e a alimentação. Remunerar os destaques (quesitos) é uma grande dificuldade; em alguns casos, das escolas menores de proporção e finanças, algumas delas, por exemplo, nem se dá ao luxo de uma ajuda de custo aos que desfilam disputando os quesitos da Escola, frente ao escasso e, às vezes nenhum recurso que estas entidades dispõem para manter viva a cultura popular.

A manutenção e a administração de uma Escola de Samba já é uma tarefa muito, muito difícil, e por conta disso tudo seus componentes se unem para “tocar” o trabalho e manter viva e funcionando a entidade. Porém, há ainda outras dificuldades, maiores do que as limitações físicas que estas Entidades e seus adeptos enfrentam: o maligno dissabor e o constrangimento do preconceito, da discriminação e o pior de todos: o descaso de muitas administrações de suas cidades.

Daí, diante de tantos problemas surge a criatividade, os meios “alternativos”, o malefício do “jeitinho brasileiro”... São tantas as Histórias... Uma das histórias mais hilárias que já ouvi, foi de um Robin Hood que roubava e dava quase de tudo para sua Escola de Samba (lá da Serra); Em São Leopoldo uma Escola se apoderou do carro funerário para transformar em alegoria; Ouvi de um Presidente que “pegou” as cortinas da família para transformar em alegorias e em fantasias da ala das baianas;


Histórias e mais histórias, como a de um dirigente que pintou alas inteiras com uma tinta prateada, ou da escola que recicla 100% das fantasias. A função dos “enxertos” para crescer as escolas, fundindo uma, duas e até três escolas é uma alternativa ainda em uso...

Outra história, que não sei se é verídica, mas que aconteceu no interior, e que, se confirmado, pode ter ocorrido um caso muito semelhante por uma Escola “grande” de Porto Alegre. A história aconteceu com uma Escola que teve problemas com seu instrumental. A genialidade foi que a Escola que teve problemas pediu “emprestado” a uma co-irmã os instrumentos que faltavam. Fato peculiar foi de que a Escola que emprestou, o fez sem saber que estava e a quem estava emprestando... Acontece que o presidente da Escola que emprestou não sabia da história, e o zelador, acreditando nas palavras do dirigente que pedia em seu nome, emprestou os instrumentos – que foram devolvidos após o desfile...

Estas são pequenas e criativas demonstrações e exemplos das alternativas e saídas que os dirigentes utilizam para sair da crise, usando e utilizando do dom e das artes carnavalescas do improviso e da irreverencia para superar as dificuldades financeiras.

Parabéns aos que, de forma sadia e competente, usam de criatividade inventiva para driblar as dificuldades e por sua Escola de Samba na rua. Parabéns a todos os dirigentes e lideranças do carnaval, que com sua energia e perseverança prestam um valoroso trabalho para a cultura deste país.