sábado, 30 de agosto de 2014

Da série “Com que Roupa eu Vou?” - Especial Gugu Lacerda

Olá pessoal! Nesta edição da coluna, eu conversei com o “Figurinista das Estrelas”, e por pouco não pedi um desenho pra mim. Não que eu seja uma das estrelas da folia, mas por estar diante de um dos ícones do figurino do nosso carnaval. Alguém que cresceu observando seus mestres, seguindo seus passos e trilhando um caminho de sucesso. Hoje, nossa coluna é o papel para que o mestre Gugu Lacerda desenhe sua trajetória carnavalesca para o público.

“SIMPLESMENTE GUGU”

Não foi fácil conseguir um tempo pra falar com ele, até que finalmente estávamos nós, no dia, hora e local combinados. Porém, antes de eu fazer a primeira pergunta, o celular dele toca. Ele resolve o assunto, volta-se para mim e novamente o telefone toca. Sim, o celular dele não para. Aliás, ele não para. A cabeça sempre pensando no trabalho, nos seus afilhados, em tudo. Inquietude vinda dos tempos de criança.


“Eu sou estilista e modelista calçadista, cursando ainda designer de produtos. Mas meu sonho era ser arquiteto”, conta Luiz Augusto, ou simplesmente Gugu, apelido carinhosamente dado a ele por Iara Deodoro. E a paixão pelo carnaval também veio da época de infância. “Eu montava desfiles de carnaval com meus brinquedos em casa. Minha mãe achava uma loucura!”.

Com raiz no IAPI, a paixão pelos traços começou justamente na escola do bairro, a União da Vila do IAPI. Levado pelo pai aos ensaios, ele se encantou com os figurinos de Adoniram Ferreira. Mas foi com os desenhos de Guaraci Feijó que ele se identificou de verdade. “Guaraci é o mestre dos mestres, para mim. Tem desenhos claros, limpos e eu me inspirei muito nele, a ponto das pessoas acreditarem que

era ele quem desenhava e que eu só colocava o meu nome”, conta Gugu, aos risos.


De fato, a aproximação com Guaraci Feijó lhe trouxe aprendizado e experiência. Ainda jovem, fez alguns trabalhos para a extinta Garotos da Orgia e para a Vila do Iapi, em parceria com Mano Brum, outro grande parceiro seu. Ainda com Guaraci, trabalhou em diversas escolas do interior, como figurinista e auxiliando no projeto de carnaval das escolas.

Foi quando que, para o desfile de 2002, ele recebeu o convite para assumir a direção de carnaval da Academia de Samba Puro, na época no Grupo A. Foi quando sentiu o peso da responsabilidade de coordenar um departamento de carnaval. “Havia muita pressão sobre o meu trabalho, pela minha idade, já que eu era novo ainda, dificuldades financeiras... Tinha uma cobrança forte da comunidade. Mas foi nessa época que conheci a Onira Pereira, que me deu uma grande ajuda com o grupo show da Samba Puro”, conta Gugu.

Aliás, a parceria com Onira Pereira rendeu bons frutos e uma bela amizade. “A Onira e o Jorge Elmar foram dois grandes pilares no meu trabalho. Foi um ano difícil, mas graças a Deus, conseguimos fazer um trabalho bem feito e a Samba Puro conquistou o título no grupo, garantindo a vaga ao Especial”. No desfile campeão, o diretor passou pela avenida de chinelo, camiseta e bermuda. “Era muita correria, não deu tempo de colocar uma roupa!”.

Além da Samba Puro, Gugu passou também por Acadêmicos de Gravataí, Copacabana, Vila Mapa, Praiana e Imperatriz Dona Leopoldina, onde destaca o ano de 2003, como um dos seus melhores trabalhos. “O enredo era Festa para um Rei Negro na Corte da Negra Imperatriz. Eu me esmerei muito para fazer aqueles figurinos, trabalhando mais uma vez com o Mano Brum. E a Leopoldina ficou em terceiro lugar no Especial.” relembra ele, que também teve uma passagem marcante pelo Império da Zona Norte.

“Eu fui o carnavalesco do Império em 2004, quando a escola estava no Grupo B. Fomos campeões. Eu saí da escola e retornei para o carnaval de 2009, como figurinista e carnavalesco”. Mas ele afirma que nem tudo foram rosas. “Nem tudo é como a gente deseja. O artista que pensa e cria o carnaval da escola, ainda precisa ser valorizado em Porto Alegre”, desabafa.

Quando perguntado sobre a fama de polêmico, ele nega que seja da turma da polêmica, do “bafão”, mas afirma que compra a briga quando acha que é justo. “Às vezes as pessoas confundem sinceridade com polêmica. Eu sou sincero, e quando vejo que a coisa está errada, eu vou atrás, eu cobro. Sou pelo justo. Não só comigo, mas com os meus também”.


Nesses “meus”, podemos incluir com toda certeza seus afilhados do carnaval. Aquele rapaz que teve o apoio dos grandes mestres para seguir sua trajetória, hoje sem perceber, faz o mesmo com os jovens talentos do nosso carnaval. Mais que um simples padrinho, toma às vezes de pai quando precisa. “A minha participação na vida deles vai além da criação de figurinos e fantasias. Tem a auto-estima, o apoio, o conselho. Mostrar pra eles que o destaque tem direitos, mas também tem deveres”.


É pensando no futuro do carnaval que Gugu tanto se importa com o passado, com a história da nossa folia, que ele procura resgatar sempre, conversando com pessoas que abriram os caminhos para que tantos outros estejam aqui hoje. “Os jovens precisam saber que teve alguém aqui antes que abriu as portas para que ele hoje esteja na avenida, fazendo o trabalho dele. Sempre teve alguém que iniciou tudo e esse alguém precisa ser lembrado, respeitado.”, afirma.

No seu trabalho, tanto no desenho quanto na confecção das roupas e fantasias, Gugu é detalhista. “O conjunto de fantasias da escola precisa estar bem alinhado, o jogo cromático deve ser bem feito, para dar harmonia ao desfile. Na roupa do destaque é a mesma coisa. É preciso saber trabalhar bem as cores, os tecidos, cada detalhe da peça.

É também pensando no futuro, que Gugu exercita sua criatividade para fazer novos figurinos e roupas para os destaques. E ele revela, “adoro mexer nas estandartes e é a minha grande briga com a Onira”, ri. E foi falando nas estandartes, que ele relembra um episódio engraçado. “Uma vez, a Lillian Pereira (estandarte do Império da Zona Norte) me trancou no escritório, fechando a porta e passando a chave. Disse que eu só ia embora depois que desenhasse a fantasia dela para o Bambas em 2012”, relembra Gugu, aos risos.

Quando eu pergunto, “Qual o peso de ser Gugu Lacerda?”, recebo alguns minutos de silêncio antes da resposta. “Não sei qual o peso de ser o Gugu. As responsabilidades que chegam pra mim, que eu busquei, isso sim pesa. Essa minha importância na vida dos jovens aí... Eu tenho 32 anos de idade, 16 trabalhando ativamente no carnaval. Tenho muito a aprender”. E ainda acredita no seu grande sonho: um dia ser o carnavalesco da sua escola do coração, a União da Vila do IAPI. “Seria a minha maior realização”, afirma ele.

Posso dizer que a frase “vivendo e aprendendo” cabe e muito bem para Gugu Lacerda. Trabalhos em grandes escolas, com os grandes nomes do carnaval, premiadíssimo, e ainda sim buscando crescer. Como profissional e como pessoa. A cabeça a mil já trabalhando no carnaval de 2015, e o telefone que novamente volta a tocar... Mas aí já é final de entrevista. E eu me despeço e o deixo liberado para atender aos afilhados, aos projetos carnavalescos, à sua mente criativa, que com certeza ainda tem muito a contribuir para o nosso carnaval.


Na próxima edição desta coluna, meu encontro é com uma das grandes damas do nosso carnaval. Uma verdadeira águia, soberana: Onira Pereira. Até a próxima!