quinta-feira, 22 de maio de 2014

Que Xangô lhe perdoe!


Como o Setor 1 é de tudo e de todos e boa parte da nossa comunidade carnavalesca é de uma das religiões de matriz africana, não poderíamos ficar de fora do assunto que tomou conta do noticiário esta semana. A Umbanda e o Candomblé foram desconsiderados como religião por um juiz brasileiro que dois dias depois voltou atrás. Para falar sobre o assunto convidamos a espirituosa Imperiana Simone Moraes para dizer “algumas coisinhas” sobre o assunto.

Que Xangô lhe perdoe! Assim seja.
Por Simone Moraes

                Se me perguntarem: “O que se deve fazer com pessoas que não compreendem a plenitude da fé, o respeito ao próximo e a não violência à liberdade de cada um?” Respondo: Reze por elas. Por isso, inclui em minhas orações o juiz Eugênio Rosa de Araújo, que figurou no cenário de notícias semanais por ter desconsiderado Candomblé e Umbanda como religiões. Prefiro rezar por pessoas assim. Há de se ter pena de alguém que desfruta de um nível privilegiado de intelecto e não consegue evoluir como pessoa. Alguém que se aprimorou para agir em nome da justiça e idoneidade, capaz de justificar a revisão dos fundamentos de sentença com “forte apelo da sociedade civil” e não consegue ter a humildade sensatez de admitir que agiu de maneira preconceituosa e discriminatória, merece sim nossa piedade e nossas prece.

            Foi-se o tempo em que as pessoas tinham vergonha de suas restrições e preconceitos e, ironicamente, isso aparecer entre um dos maiores problemas da sociedade, pois a partir do momento que o código genético individualiza o ser humano, a discriminação pelo “diferente” deveria ser no mínimo incompreensível caso não tivessem sido criados os malditos padrões e se na história que é onde os indivíduos preconceituosos procuram argumentos, não tivéssemos as páginas da escravidão e da segregação racial, que inferioriza o negro e tudo que dele vem, não o que provém, pois pra erguer um país com seus braços marcados pela chibata o negro foi útil.

             Anos de luta para termos voz e agora querem silenciar nossos tambores? Não é permissível que nossa ancestralidade seja absurdamente desconsiderada. E com o respeito e a fé que me cabe, com licença aos demais orixás, eu peço a Xangô que no sincretismo africano é reconhecido como o “rei da justiça”, que absolva o juíz Eugênio Rosa Araújo por piedade. Afinal, já é pena suficiente o fardo de ser a pessoa medíocre que ele é. Kaô, meu pai.